Trabalhadores por conta própria têm jornada 13,6% maior que a de empregados no Brasil
Dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua)

Foto: Own work/Wikimedia
LEONARDO VIECELI - Profissionais por conta própria têm jornadas de trabalho maiores do que empregados e empregadores no Brasil, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (14) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
No primeiro trimestre de 2026, os autônomos trabalharam em média 45 horas por semana. Trata-se de uma carga 13,6% acima da registrada entre os empregados (39,6 horas) -funcionários de empresas privadas ou do setor público (formais ou informais).
A diferença é ainda maior quando a comparação envolve os empregadores. A média semanal dos trabalhadores por conta própria (45 horas) superou a dos donos de negócios (37,6 horas) em 19,7% no primeiro trimestre.
Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). O indicador analisado é a média de horas habitualmente trabalhadas por semana no trabalho principal das pessoas de 14 anos ou mais de idade.
Os profissionais por conta própria (ou autônomos) envolvem ocupações diversas, com ou sem registro de CNPJ. O grupo abrange, por exemplo, MEIs (microempreendedores individuais) e motoristas e entregadores de aplicativos.
Em entrevista a jornalistas, o analista do IBGE William Kratochwill lembrou que os trabalhadores por conta própria podem exercer suas funções sem uma carga horária definida em contrato, como é o caso dos empregados formais. Isso, segundo ele, contribui para a jornada mais extensa dos autônomos.
William ainda mencionou que os profissionais por conta própria não têm como delegar tarefas a funcionários, como é o caso dos empregadores. Assim, dependem do seu próprio desempenho durante o dia para ter renda, o que também pode resultar em mais horas na ativa.
Em outubro de 2025, o IBGE divulgou uma versão anual da Pnad com dados de 2024 sobre pessoas que trabalham por meio de aplicativos.
Segundo o levantamento, o grupo que atuava por meio dos apps chegava ao fim do mês com rendimento maior na média do que profissionais "não plataformizados", mas recorria a jornadas mais extensas na semana.
"No caso dos trabalhadores autônomos de aplicativos, quanto mais horas eles trabalham durante o dia, maior é a remuneração", diz o pesquisador João Mário de França, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
"Isso tem a ver com a falta de regulação e a busca por renda maior. Por isso, a jornada é mais extensa."
Na versão da Pnad divulgada nesta quinta, o IBGE também investiga a categoria dos trabalhadores familiares auxiliares. São as pessoas que não recebem remuneração para ajudar parentes no trabalho.
Esse grupo teve média de 28,8 horas trabalhadas na semana no primeiro trimestre de 2026. É o menor patamar da pesquisa.
Na média das quatro categorias investigadas pelo IBGE (empregados, empregadores, trabalhadores por conta própria e auxiliares familiares), a jornada ficou em média em 39,2 horas por semana no primeiro trimestre.
O maior nível da série histórica foi observado no início da pesquisa, no primeiro trimestre de 2012: 40,6 horas. Já a mínima foi de 38,9 horas em trimestres de 2018 e 2019.
A divulgação dos dados do IBGE ocorre em meio ao debate sobre o possível fim da escala 6x1 no Brasil. Esse modelo determina seis dias de trabalho e um de descanso na semana para empregados formais.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), fechou um acordo para votar o projeto de lei do governo que acaba com a escala 6x1.
A medida é uma aposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para as eleições deste ano, segundo pessoas a par das negociações. O texto deve ser votado em conjunto com uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) já em discussão.


