A guerra que nos impede de celebrar

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A guerra que nos impede de celebrar

O ator Wagner Moura acaba de receber um prêmio internacional de grande relevância. Em outros tempos, a notícia talvez tivesse produzido um sentimento simples e raro: orgulho coletivo, como um gol em partida de Copa do Mundo? Possível. Hoje, porém, o reconhecimento vem acompanhado de algo inevitável — a disputa ideológica. Não sobre o mérito artístico, mas sobre o posicionamento político. A conquista se torna secundária. A guerra emocional, central.

O episódio diz menos sobre o artista e mais sobre o país. O Brasil vive um estado permanente de tensão afetiva, no qual qualquer fato público é imediatamente capturado por identidades políticas rígidas. Não se reage mais ao acontecimento; reage-se ao que ele “representa”. A emoção vem armada. Há, nesse processo, é minha forma de sentir, uma inversão silenciosa: símbolos nacionais deixaram de unir para dividir. A bandeira e as suas cores,a cultura, o sucesso individual e até o reconhecimento externo passaram a funcionar como marcadores de campo, de posicionamentos. O que antes produzia identificação coletiva hoje aciona desconfiança automática. O brasileiro já não pergunta “o que isso diz sobre nós?”, mas “de que lado isso está?”.

O resultado é um país incapaz de experimentar satisfações compartilhadas. A alegria precisa vir com ressalva. O aplauso exige pedido de desculpas. O reconhecimento internacional vira provocação doméstica. Celebra-se “apesar de” ou critica-se “por princípio”. O “nós” desapareceu do vocabulário emocional. Essa guerra não se trava nas instituições, mas nos afetos. Ela se manifesta nas redes, nas conversas familiares, nos silêncios constrangidos. É uma guerra sem bombas, mas com efeitos duradouros: erosão do pertencimento, desconfiança mútua, cansaço coletivo. Um país que não consegue vibrar junto começa a se estranhar por dentro.

O problema não é discordar — discordar é democrático. O problema é quando toda discordância impede qualquer gesto comum. Quando toda conquista vira teste de pureza ideológica. Quando o sucesso de um brasileiro já não é visto como sucesso do Brasil. Talvez o maior prêmio que perdemos não seja artístico nem político, mas simbólico: a capacidade de, por um instante, baixar as armas emocionais e reconhecer que ainda fazemos parte da mesma história, de um mesmo país.

 

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