Vivemos um tempo em que opinar se tornou mais importante do que compreender. O chamado “achismo” — esta convicção construída sem método, sem dúvida e sem responsabilidade — passou a ocupar o espaço que antes pertencia à reflexão crítica. Opina-se por ideologia, por identidade, por afinidade emocional ou simples pertencimento a um grupo. O conteúdo importa menos do que o alinhamento.
O problema do achismo não está apenas na superficialidade, mas na sua pretensão de verdade. Ele não se apresenta como hipótese, mas como conclusão definitiva. Não dialoga, sentencia. Não investiga, reage. Como alertava Nietzsche, “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. A frase permanece atual porque descreve com precisão a rigidez mental de quem acredita que pensar é apenas confirmar aquilo que já decidiu sentir.
Quando o juízo nasce pronto, moldado por ideologia ou visão estreita de mundo, a realidade passa a ser forçada a caber nele. Fatos deixam de ser instrumentos de compreensão e passam a ser selecionados, distorcidos ou ignorados conforme a conveniência da narrativa. Não se busca o que é verdadeiro, mas o que é útil para sustentar a própria posição. Essa fragilidade intelectual cobra um preço alto no debate público. O espaço da dúvida — essencial à democracia e ao pensamento sério — é tratado como fraqueza. A complexidade é vista como traição. Pensar diferente vira ameaça, não oportunidade. O resultado é um ambiente ruidoso, polarizado e intelectualmente empobrecido.
Hannah Arendt lembrava que pensar exige disposição para interromper certezas e encarar o desconforto do questionamento. O achismo faz o oposto: oferece respostas rápidas para evitar perguntas difíceis. Ele anestesia a consciência crítica e substitui reflexão por pertencimento. Um jornal, uma sociedade e um indivíduo amadurecem quando aprendem a distinguir opinião de análise, convicção de argumento, crença de evidência. Num tempo em que todos acham, mas poucos pensam, talvez o gesto mais revolucionário seja exatamente este: desconfiar do próprio achismo antes de exigir certeza dos outros.



