Foram 37 anos de minha vida de 65 anos dedicados ao Judiciário Federal Trabalhista. Passei por salas de audiência, caminhei por corredores da alta administração, exercendo função ligada à presidência por 20 anos, 10 presidentes, pude também pelos contatos frequentes – implantei no Quinto Regional o Dia do Cidadão, que perdura até hoje, ali vi as dores e esperanças de trabalhadores e empregadores, aprendi uma lição fundamental: a toga não pode ser um símbolo de vaidade ou poder pessoal. Ela deve representar a neutralidade serena, o escudo da lei e a garantia de que todos, absolutamente todos, serão tratados com a mesma equidade. Por isso, causa profundo desconforto assistir a cenas em que a liturgia da Justiça se confunde com o proselitismo religioso. Quando um magistrado — seja ele um juiz de primeiro grau ou um ministro das Cortes Superiores — associa a dignidade do seu cargo a dogmas de fé, pede orações em ambientes de culto ou permite que a toga passe pelo púlpito, quebra-se um pacto republicano essencial. O Brasil é um Estado laico. Essa laicidade não é uma postura contra a fé, mas justamente a única salvaguarda da liberdade de todas as crenças e também do direito daqueles que não professam religião alguma. O templo do magistrado é a Constituição Federal; sua oração é o cumprimento rigoroso do devido processo legal; sua doutrina é o conjunto das leis do país.
Misturar a fé individual com o exercício da jurisdição é apequenar a Justiça. Quem busca o Poder Judiciário não quer uma bênção espiritual ou uma sentença fundamentada em preceitos morais de uma determinada igreja. O cidadão busca a aplicação da lei fria, justa e imparcial. Espera que o julgador se dispa de suas convicções pessoais para ser a voz da ordem jurídica. Ao permitir que o púlpito avance sobre a bancada do tribunal, compromete-se a confiança pública na imparcialidade das decisões. O Judiciário Federal não pertence a uma fé, a um partido ou a uma ideologia. Seu único compromisso é com a sociedade, com a cidadania e com a Carta Magna. Honrar essa trajetória de serviço público exige reconhecer que fé e Estado caminham lado a lado apenas quando mantêm a devida e respeitosa distância.




