As dores e o setembro

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As dores e o setembro

O fato é que a gente passa boa parte da vida fingindo que tem tudo sob controle, que a vida se vai levando. Posta a foto sorrindo, com os amigos, no tempo necessário para o clique que não se ouve mais das antigas câmeras fotográficas, mas se captura o momento mimetizado, e saímos pela vida respondendo que “tá tudo bem” no automático e segue o jogo, como se a vida fosse uma linha reta e perfeitamente asfaltada. Mas a verdade é que viver machuca. E machuca de um jeito que não deixa roxo na pele, não sai no exame e nem dá pra mascarar com remédio caseiro. As dores humanas são esquisitas. Às vezes elas chegam com o barulho de uma tempestade — um término estrondoso, a perda de alguém, uma demissão inesperada. Outras vezes, chegam num silêncio manso e sufocante, acumulando cansaço, cobrança e aquela sensação esquisita de estar meio desconectado do mundo. A gente é treinado pra aguentar o tranco, pra “ser forte”, só que essa casca dura que a gente cria vai pesando tanto que, uma hora, os joelhos dobram. É aí que o Setembro Amarelo entra. Sem aquela conversa bonita e engessada de manual, mas como um puxão de orelha afetuoso: você não precisa dar conta de tudo sozinho. O laço amarelo não é só uma campanha de conscientização na firma ou na faculdade. Ele é um lembrete escancarado de que sentir dor é humano, mas sangrar sozinho é uma escolha que a gente não precisa fazer.

Adaptar-se à vida não é engolir o choro e fingir que nada aconteceu. Adaptar-se é entender que a tempestade molha todo mundo, mas que dá pra dividir o guarda-chuva. Pedir ajuda não é sinal de que você falhou, de que é fraco ou que tá incomodando. Pelo contrário: mandar uma mensagem, ligar pro 188 do CVV ou marcar uma consulta com um psicólogo é o ato mais corajoso que alguém no limite pode ter. É dizer "eu quero continuar, só preciso de uma mão pra me puxar pra cima". Se a vida tá pesada demais por aí, respira. O dia escuro de hoje não determina o resto da sua história. A dor passa, as estações mudam e sempre tem alguém disposto a escutar sem julgar. Falar cura, desabafar alivia. Não guarda o mundo no peito. A gente tá junto nessa travessia, e a sua vida importa demais pra virar silêncio.

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