Digam-me se estou errado: onde está aquele São João da sanfona, da zabumba e do triângulo? Alguns dirão: o tempo passou, as coisas mudaram. E eu acrescento: talvez as tradições não tenham acabado, mas certamente estão se perdendo. Vivemos um processo de contaminação cultural em que o bom e velho forró foi engolido pela máquina da fama e dos cachês milionários. Não sou contra que cada artista valorize o seu trabalho como entende justo. De forma alguma. Mas me pergunto: onde ficaram os velhos e bons sanfoneiros das festas juninas?
Não falo aqui de um purismo moralista ou de uma ideia rígida de “pureza cultural”, mas de uma questão estrutural: quando um ecossistema simbólico sofre interferências externas tão intensas, sua essência começa a se dissolver.
É preciso perguntar: quando um jovem vai ao São João e passa horas ouvindo sertanejo, funk ou um piseiro descaracterizado, qual memória cultural ele está herdando? Que tradição lhe está sendo transmitida? A cultura popular sobrevive pela repetição viva. E, se essa repetição muda radicalmente, a tradição enfraquece, a história se dilui e os laços com o ontem se desfazem nas dobras de um novo que não nasce organicamente, mas que é imposto como matéria de consumo.
O argumento da “modernização” muitas vezes encobre um processo de padronização nacional. O Brasil vai se tornando sonoramente homogêneo — e a homogeneização cultural é sempre uma perda, porque empobrece a diversidade.
Não se trata de xenofobia musical, nem de proibir outros ritmos. A questão é de proporção e centralidade. Um Carnaval na Bahia sem axé seria estranho; no Rio, sem samba, igualmente. O Círio sem procissão seria descaracterizado. Então por que um São João sem forró deveria ser visto como algo natural? Defender o forró no São João é defender o suor das mãos calejadas da roça, o licor feito em casa, a fogueira acesa no terreiro, a quadrilha improvisada, a simplicidade da festa que carrega a alma de um povo. É afirmar que nem tudo deve se curvar à lógica do mercado. Há coisas que precisam permanecer porque sustentam a memória coletiva. Se o capital decide o repertório da festa, em pouco tempo decidirá também a memória, a identidade e até o imaginário de um povo.
Um povo sem memória, sem a essência de sua cultura, torna-se mais vulnerável: aceita qualquer narrativa sobre si mesmo e perde a consciência do caminho que o trouxe até aqui. Agora há o chamado palco principal, grandioso, luminoso, cercado de estruturas monumentais. E, nos arredores, já não se vê o chapéu de couro, nem a quadrilha montada na hora, naquela desorganização alegre que era, paradoxalmente, a mais autêntica forma de ordem popular.
Considero-me vanguardista em muitas questões. Não tenho aversão ao novo. Mas confesso: incomoda-me ver o chão nordestino asfaltado, no dia de São João. E aqui, sim, usei uma metáfora.



