A mensagem enviada por Gisele ao pai pouco tempo antes de morrer deveria constranger o país inteiro: “Pai, vem me buscar porque eu não aguento mais.” Não se trata de literatura trágica, mas de um pedido real de socorro. Horas depois, ela foi encontrada morta. O caso envolve um relacionamento descrito como abusivo e um marido que ocupava alta patente na Polícia Militar de São Paulo. Mais do que as circunstâncias específicas, o que choca é a repetição de um padrão que o Brasil insiste em tolerar.
Gisele, segundo relatos, vivia sob controle constante. Não podia usar um batom, não podia exercer gestos simples de autonomia que fazem parte da identidade de qualquer mulher. O detalhe pode parecer pequeno, mas não é. O controle sobre a aparência é um dos primeiros sinais de uma dinâmica abusiva. Não começa com agressão física. Começa com vigilância, restrição, desqualificação e isolamento. Começa com a tentativa de apagar a individualidade da mulher.
O Brasil registra, em média, quatro mulheres assassinadas por dia em razão de seu gênero. Não são mortes aleatórias. São feminicídios. São crimes atravessados pela lógica da posse, pela cultura que ainda ensina que o homem deve dominar e que a mulher deve suportar. A cada novo caso, repete-se o mesmo discurso: “ninguém sabe o que acontece dentro de um casamento”. Esse argumento, usado como escudo moral, acaba funcionando como mecanismo de silêncio.
Relacionamentos abusivos seguem um roteiro conhecido. Primeiro, o controle sutil. Depois, o isolamento emocional. Em seguida, a intimidação. Quando a violência física aparece, a vítima muitas vezes já está fragilizada psicologicamente, economicamente ou socialmente. Perguntar por que ela “não saiu antes” é ignorar o medo, a ameaça e a manipulação que estruturam essas relações.
O caso de Gisele, que também era policial, pois é... ainda mais simbólico porque envolve alguém inserido em uma instituição cuja função é proteger a sociedade: o marido é ten-Coronel. Isso amplia o debate sobre como estruturas hierárquicas e autoritárias podem, em alguns contextos, reforçar padrões de controle que transbordam para a vida privada. Não se trata de atacar instituições, mas de reconhecer que nenhuma delas está imune à cultura machista que atravessa o país.
Este artigo é , sim, contra o machismo. É contra a mentalidade que transforma companheiras em propriedades e que associa masculinidade à imposição de poder. É contra a ideia de que ciúme excessivo é prova de amor. É contra a naturalização de frases como “você não vai sair assim” ou “eu sei o que é melhor para você”. Enquanto o Brasil continuar tratando feminicídio como tragédia episódica e não como problema estrutural, os números continuarão se repetindo. É preciso educação emocional nas escolas, políticas públicas efetivas, acolhimento real às vítimas e responsabilização rigorosa dos agressores. É preciso, sobretudo, romper o silêncio social que relativiza o controle e minimiza sinais claros de abuso.
A frase “eu não aguento mais” não pode continuar sendo a ante-sala da morte para tantas mulheres. Ela precisa ser ouvida como alerta coletivo. Cada caso como o de Gisele não é apenas uma perda individual; é um fracasso social. Até quando aceitaremos que quatro mulheres por dia sejam assassinadas no Brasil por serem mulheres? Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta prática, o país continuará falhando em proteger metade de sua própria população. Ah!!! Estão querendo emplacar a tal versão....sucídio.



