Está gerando muito debate a ideia do ator Juliano Cazarré de dar um curso, cuja proposta voltada ao que ele chama de “homens enfraquecidos”, o que gerou forte reação pública e críticas de atrizes e comentaristas, especialmente pelo risco de reforçar visões distorcidas sobre masculinidade em um contexto de violência de gênero.
Não é problema discutir masculinidade. O problema começa quando “masculinidade” vira produto vendido como fórmula de poder, controle emocional rígido e superioridade dentro da relação. Em um momento histórico em que os índices de agressão contra a mulher ainda assustam, é preocupante transformar insegurança masculina em mercado. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou recordes recentes de feminicídio e crescimento nos casos de violência doméstica e ameaças contra mulheres, mostrando que o problema está longe de ser superado.
Muitos desses cursos e discursos confundem maturidade com dureza, liderança com autoritarismo e respeito com submissão feminina. Ser homem não é dominar ninguém. Não é impor silêncio, exigir obediência ou tratar afeto como fraqueza. Isso não é força: é despreparo emocional com embalagem moderna. A verdadeira maturidade masculina passa por autocontrole, responsabilidade, escuta, capacidade de diálogo e parceria. Homem seguro não precisa diminuir mulher para se sentir grande. Relacionamento saudável não funciona com hierarquia de gênero, mas com reciprocidade.
Quando vendem o contrário, não estão formando homens melhores — estão reciclando velhos erros com marketing novo. O discurso machista não é apenas uma opinião ultrapassada ou um estilo de fala “bruto”. Ele funciona como um mecanismo cultural que normaliza desigualdade, controle e desumanização da mulher. Quando isso se espalha em conversas, redes sociais, cursos, influenciadores ou ambientes familiares, cria-se um terreno fértil para diferentes formas de violência. Em diversos países, inclusive no Brasil, os índices de feminicídio, agressão doméstica e assédio continuam alarmantes. Esses crimes não nascem do nada. Eles se conectam a culturas onde mulheres são vistas como propriedade, objeto ou ameaça à autoridade masculina.
Certo é, quando uma sociedade tolera piadas humilhantes, desprezo e controle emocional, ela também enfraquece barreiras contra agressões mais graves. A violência extrema costuma ser precedida por violências simbólicas e psicológicas tratadas como normais. Uma ideia recorrente é dizer que o homem “por natureza” precisa dominar, mandar ou ser violento. Isso não é ciência séria: é justificativa ideológica. Precisamos de homens mais conscientes, não mais endurecidos. Mais responsáveis, não mais arrogantes. Mais preparados para conviver em igualdade, não treinados para disputar poder dentro de casa. Porque quando a desigualdade vira método, a violência encontra caminho.



