Realmente, eu não sei se ainda se trata de preconceito, de ignorância ou se é a forma mais concreta e sedimentada da hipocrisia que faz com que uma cantora não declare em sua arte a sua fé. Falo da cantora Anitta. Digo, de pronto, que não sou admirador da sua arte, mas admiro, sim, a forma dela defender suas questões e estilo. Dito isso, precisamos ter honestidade intelectual: a liberdade artística só é celebrada quando não confronta o que o fã abraça, que tem como certo? O caso recente de Anitta expõe uma contradição infame, no meu sentir. Ao incorporar em sua obra elementos da fé que professa, ela não fez nada além do que artistas sempre fizeram — traduzir sua visão de mundo em linguagem estética. Ainda assim, a reação foi imediata: perda de seguidores, críticas e um movimento claro de rejeição, ou falso puritanismo, dirão os de mais idade, como eu.
Isso, no entanto, levanta uma questão objetiva: existe, na prática, um limite informal para a expressão religiosa quando ela sai do espaço privado e ocupa o palco? Porque não estamos falando de imposição, mas de representação. O artista não está obrigando ninguém a aderir à sua crença; está, no máximo, convidando o público a entrar em contato com um universo simbólico que faz parte da sua identidade que, certamente, alicerçou a própria caminhada.
Ela “perdeu” 300 mil seguidores em suas redes sociais, pode parecer expressivo à primeira vista, mas, proporcionalmente, é irrelevante dentro do alcance que ela possui, e mais: ela nunca se preocupou com isto. Esse tipo de reação funciona como filtro de público. Quem se afasta por desconforto com a fé do artista talvez nunca estivesse, de fato, alinhado com a essência do que ele representa.
Há também um equívoco recorrente: a ideia de que a arte deve ser neutra. Isso não se sustenta. Toda produção artística carrega valores, crenças, visões — explícitas ou implícitas. Quando esses elementos são aceitos em certos contextos, mas rejeitados em outros, o critério deixa de ser estético e passa a ser ideológico. O ponto central não é Anitta, mas o precedente. Se um artista começa a se autocensurar para evitar perdas de audiência, a consequência é previsível: empobrecimento da arte. A criação passa a ser guiada por cálculo de aceitação, não por autenticidade.
No fim, a pergunta correta não é por que ela perdeu seguidores, mas por que ainda se estranha que um artista expresse sua fé. Isso diz menos sobre quem cria e mais sobre quem consome.



