Contei pra vocês que estava de mudança? Pois é, mudei! Pela décima segunda vez, nesta encarnação, encaro a liturgia migratória no culto do desapego, encaixotamento e adaptação, a eclética trindade do ritual mutante. Teoricamente um processo solitário, mas na prática a teoria é outra. O auxílio no traslado é crucial, pode ser do Gato Preto, ancestral transportadora ou a little help from my friends, do Negro Gato Messias, o mago lustrador, que conheci em 2017, quando desembarquei de mala cuia e cão em Salvador, ele veio pra dar um grau no piso do apê, mas habilidoso que é e ozado que só, se revelou um faz tudo geral e virou meu brother total! No Aquarela do Brasil, minha primeira morada soteropolitana, Messias criou fama, eleito queridinho do prédio prestou serviços para o condomínio e reformou dois apartamentos, o que manteve meu parça no day by day dos novos baianos, eu e Zé, meu solar vira-lata! Memê, como eu o chamo, é habilidoso, talentoso e muito criativo, impossível não imaginar que se melhores oportunidades tivesse na vida, a resenha seria outra! Mas o baiano retado não come reggae, o cabra da peste é duro na queda, vivo, muito vivo e bem disposto. Artista nato, dono de um aguçado senso estético, é comovente sua alegria ao transformar um rascunho em arte final, suas sugestões decorativas, ou como ele diz: de design, revelam um raciocínio elaborado, antenado e simétrico; na casa nova, determinado a recuperar as paredes azulejadas da cozinha e preocupado em não extrapolar o reduzido orçamento, deu seu jeito! Munido de tinta epóxi e fakes azulejos hidráulicos, total kitsch, reinventou o espaço com a criação de um mural Naif sobre a bancada da pia, véi ficou difudê!
Eu tal qual um mecenas observei Memê na milimétrica execução de sua obra, encantado com seu caprichoso empenho e absoluta concentração na elaborada organização das cores. Lamentavelmente não tenho seu dom, Messias é king do make yourself, eu sempre fui péssimo em trabalhos manuais. Memê e eu somos diferentes, ele negro, eu branco, i gay, he straight, eu macumbeiro, ele evangélico mas em nossa fraternal camaradagem temos em comum além da admiração mutua, o respeito por nossas diferenças e a convicção de que não somos desiguais.
E antes que alguém, sarcasticamente, insinue que sou apaixonado por Memê, deixo claro que sou de fato apaixonado por Memê. A bravura dos guerreiros na abjeta batalha contra os dragões da maldade, desperta em mim ternas paixões. Aos intolerantes racistas militantes do ódio, beijinho no ombro! Sou desses que acredita no amor, do bom e do bem! Je suis liberté, egalité fraternité, Ajayô!
Mas preciso ser justo e deixar aqui registrado que além de Messias, conto com o auxílio luxuoso de Simone, a brejeira baianinha de forno e fogão que faz uma moqueca de banana da terra pra comer rezando. Simony, seu carinhoso apelido, dado por Memê, é bamba! Se vira nos trinta e joga nas onze, andou sumida da cozinha aqui de casa, por que abriu seu restaurante lá pelos lados de Paripe, mas por conta da crise, temporariamente, teve que fechar as portas do estabelecimento; decidida retornou a ativa, disposta a sacudir a poeira e dar a volta por cima! Aqui na Lord Cochrane, no novo lar doce lar dos novos baianos, Simony foi peça fundamental na organização domiciliar, lavou, secou, espanou e claro pilotou o fogão, para nosso doce deleite. Simony é Agro, é tech, é pop, só não tá na Globo!
Às vezes, de zoada digo que vou me mudar de novo, só pra bagunçar e ter motivos de manter a gente junto e misturado, mas percebo que não devo ser tão egoísta e privar geral de tão dinâmica dupla, melhor compartilhar! Quem estiver carente duma cozinheira ou dum faz tudo, manda mensagem, entra em contato, a tropa de elite tá liberada pra espalhar benefícios! Só no lobby, só lobby! Sem remuneração só por gratidão!
E antes do ponto final, um aviso aos praticantes e simpatizantes, segunda-feira, véspera do dois de julho, vai rolar no Teatro Vila Velha o Miss Bahia Gay, com a icônica Bagageryer Spilberg, diversão garantida e diversidade reconhecida!
Salve a Independência da Bahia!
A gente se vê na subida ou descida da ladeira.
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