Foto/Divulgação: Rede Globo
Alguém dirá que é o tal mercado, outro que são as novas formas de comunicação, mas , tenho certeza, que neste balaio não vai entrar competência direcionada ou específica. Imagino que a contratação da influenciadora Virginia Fonseca, pela Globo, para participar da cobertura da Copa reacende uma discussão que já vinha se desenhando há alguns anos: o entretenimento passou a disputar espaço e, muitas vezes, prioridade com a formação profissional tradicional, experiente. A questão não é pessoal. Só vim, por sinal, conhecer esta moça, não faz muito, o fato é que não se trata de desqualificar Virginia nem de negar sua enorme capacidade de comunicação. Influenciadores digitais dominam algo que boa parte da televisão perdeu: atenção, alcance e o tal engajamento. Eles movimentam audiência, criam repercussão instantânea e dialogam diretamente com milhões de pessoas. O Cazé faz enorme sucesso no Youtube com transmissões esportivas. Em verdade, para as emissoras, esses influenciadores representam audiência, publicidade e renovação de público.
O ponto central, no entanto, é outro: o que acontece quando a lógica da influência começa a substituir a lógica da especialização? Do real saber. Cobrir uma Copa do Mundo não é apenas aparecer diante de uma câmera. Existe técnica, leitura esportiva, improviso jornalístico, apuração, compreensão cultural e experiência de campo. São competências construídas ao longo de anos por profissionais que fizeram do jornalismo esportivo uma carreira. É provável, não tenho dúvida disto, que a participação de Virginia esteja mais ligada ao entretenimento, aos bastidores e às curiosidades do evento do que propriamente à cobertura jornalística tradicional. Ainda assim, sua contratação simboliza uma mudança profunda no mercado da comunicação: hoje, relevância digital pode pesar mais do que formação específica.
A televisão entendeu que disputa atenção com redes sociais, não apenas com outras emissoras. Nesse cenário, influencers se tornaram ativos estratégicos. O problema surge quando audiência passa a ser confundida com competência técnica. A tendência parece irreversível. O comunicador do futuro talvez precise reunir duas qualidades: conhecimento e capacidade de mobilizar público. Quem tiver apenas uma delas corre o risco de perder espaço. Outrossim, a emissoras entenderam que há também disputa de atenção com as redes sociais, não apenas com outras emissoras. Nesse cenário, influencers se tornaram ativos estratégicos. O problema surge quando audiência passa a ser confundida com competência técnica.
Mais preocupante é perceber que essa lógica já ultrapassou o entretenimento e começa a contaminar diversas áreas da vida pública. O prestígio conquistado pela exposição permanente nas redes, muitas vezes, passa a valer mais do que estudo, preparo, experiência e mérito construído ao longo do tempo. A visibilidade virou uma espécie de certificado informal de autoridade.
A sociedade parece caminhar para um modelo em que ser visto importa mais do que ser qualificado. E talvez essa seja a crítica mais dura desse fenômeno: estamos trocando profundidade por alcance, formação por popularidade e competência por engajamento. Quando os valores da aparência e da viralização passam a ocupar o lugar do esforço, da excelência e da credibilidade, não é apenas o jornalismo que perde — é a própria cultura da seriedade profissional.



