GOL DE LETRA

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GOL DE LETRA

“Quando vi os jogadores na pausa de hidratação, enquanto os horários de transmissão da TV ditavam o ritmo da partida, não pude deixar de me perguntar: a quem a Copa do Mundo está realmente servindo? Aos torcedores? Aos jogadores? Ou aos anunciantes?” Com estas palavras o craque do passado, Jürgen Klopp, descortinou uma questão real, que merece um esforço de compreensão. Afinal, estamos de frente com um acontecimento mundial e de grande repercussão. Suas “inovações” dão margem a uma leitura esclarecedora.

A FIFA, autora da dita inovação, a fez para propiciar aos artistas da bola um momento de recuperação dos esforços dispendidos em campo, a fim de cuidar da saúde debilitada dos mesmos. Não era uma confissão do desprezo ao longo tempo, no passado, mas uma providência retardatária. Não creio, todavia, que ninguém engoliu esta esfarrapada desculpa.

Ficou claro que a medida fora adotada com a finalidade de abrir espaço à uma nova inserção publicitária, desejada pela FIFA e pelas emissoras de televisão e empurrada goela abaixo aos incautos assistentes no mundo inteiro.  Nada a opor ao direito líquido e certo da vênus platinada ao lucro, contanto que não desfigure a tradição e as próprias características do jogo, flagrantemente modificadas aos olhares astutos dos espectadores. 

As garras invioláveis do globalismo transferiu para si o que era privativo do próprio jogo, a competição, sob a forma de incurável ganancia. Na realidade, picotado em quatro tempos distintos quanto à duração temporal, permitiu a conversão do jogo à uma industrialismo corrompedor da própria essência que o revestia, desde os tempos de sua engenhosa invenção. Dessa forma, estamos a braços com uma das características mais cruéis e desprezíveis da era do globalismo: a hipocrisia, sorrateiramente disseminada na vida política das nações.

O vexame não para por aí. Há muitas outras formas, através das quais a ditadura da FIFA investe contra as tradições do esporte bretão, convertendo o que era entretenimento em mero anacronismo esportivo e espetáculo industrial. Um deles, que chama a atenção, é a proibição cínica aos artistas da bola, sobretudo os integrantes de uma mesma equipe, de colocarem a mão na boca, em atitude destinada a tornar a mensagem livremente emitida, numa confidência protegida pela liberdade de expressão.

Outro craque muito famoso, Ibrahimovic, levanta-se contra esta aberração atentatória a fundamento essencial dos direitos humanos e da própria Democracia. Não foi à toa que o goleiro do Racing Universitaire D´Alger, o tão festejado autor da literatura do absurdo, Albert Camus, revelou para o mundo que “tudo que sei com mais certeza sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol”.

Nunca, no âmbito da História dos homens, a liberdade de expressão foi tão maltratada e a violência contra ela ultrapassou os limites do estado nacional, como no Brasil, para dinamita-la na esfera global, atingindo a arte, os esportes e a própria governança internacional. 

Custa acreditar que a FIFA está infestada da ideologia globalista. Mas, é forçoso reconhecer que esta entidade mundial opera num ambiente susceptível à ideia de uma governança mundial, alheia ao estado nacional e suas instituições democráticas. Nelson Rodrigues, um pensador que conferiu ao futebol um lugar especial na literatura brasileira, fulminou esta concepção do mundo, fazendo um verdadeiro gol de letra, quando, em um dos seus livros, teve esta premonição: “os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

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