Nem sentem vergonha

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Nem sentem vergonha

Vergonha alheia é o sentimento de constrangimento ou desconforto moral que alguém sente ao testemunhar uma atitude ridícula, inadequada, vexatória ou inadequada praticada por outra pessoa. Muitas vezes a pessoa que está cometendo o ato muitas vezes não percebe que está passando vergonha — ou parece não se importar —, enquanto quem observa absorve todo o peso do ridículo no lugar dela. Emocionalmente, a vergonha alheia é uma manifestação da empatia humana. Nossos neurônios-espelho nos fazem simular internamente a situação do outro. Mesmo que o indivíduo não sinta vergonha, quem assiste projeta: "Se fosse eu ali, estaria destruído". Mas parece que alguns dos ministros do STF não se dão conta disso, ou se dão camuflam bem direitinho. Aristóteles definia a vergonha não como uma virtude em si, mas como um afeto social prudente: o receio virtuoso do desonra. Séculos mais tarde, Sartre aprofundou a questão ao mostrar que a vergonha exige a mediação do outro. É no olhar alheio que o indivíduo se descobre exposto e toma consciência da inadequação de seus atos. A vergonha, portanto, cumpre uma função civilizatória indispensável; ela é o freio moral que impede a conversão do poder autônomo em arbítrio absoluto. Assim, quando transportamos para a vida pública, a vergonha deixa de ser mero sentimento psicológico e passa a constituir um pilar institucional. Espera-se de magistrados — sobretudo daqueles encarregados de guardar a Constituição — um padrão rigoroso de recato e decoro. A autoridade de uma Suprema Corte não emana da força das armas nem da soberania do voto, mas estritamente da credibilidade ética e da imparcialidade de seus membros. Contudo, assiste-se hoje a um fenômeno de erosão dessa trava moral. Diante da exposição contínua de condutas controversas, ativismos contornáveis e posicionamentos que desafiam a coerência jurídica, o que causa perplexidade não é apenas o ato em si, mas a ausência de constrangimento. A desfaçatez surge justamente quando a consciência do magistrado se anestesia para o julgamento da sociedade.

O processo civilizador avança à medida que as elites internalizam o autocontrole. O movimento oposto — a perda do pudor institucional — sinaliza uma regressão. Quando a exposição do erro não gera mais o recuo prudente, mas a reafirmação altiva do excesso, rompe-se o pacto de confiança entre o cidadão e a instituição. A incapacidade de sentir vergonha perante a opinião pública e os pares não é sinal de coragem ou independência, é o indício de um isolamento corporativo perigoso. Sem a consciência do olhar do outro e sem o receio do desonra, a justiça perde sua dimensão humana e republicana, degradando-se em mero exercício do poder sem contrapesos morais. Há uma sensação no ar que não se teme mais nada, haja vistas que até se busca no varejo, mesmo com milhões garantidos em contrato, diárias em hotéis de seis estrelas (nem sabia que existia por aqui isto). Pois é, as nossas pautas, os da planície, vão para as calendas, mas as megasenas da milionárias gorjetas se tornam o trivial para os do cume do poder.
 

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