Os ingleses dizem que os netos são uma dádiva de Deus. Caem do céu. São o futuro em gestação, um legado e uma nova história. Uma continuidade entre o passado, as raízes e o porvir. Tenho três: Mariza, Alba e Joaquim, este último chegará ao mundo em novembro.
O avô, já maduro e experiente, concretiza seu amor infinito por essas criaturas, se transmitir-lhes um legado que represente uma ética, uma lição moral e permanente, em face das mudanças que o tempo fará e as tradições que permanecerão como a ”democracia dos mortos” , no dizer de Chesterton.
Milagre do nascimento, eles virão ao mundo não para inaugurá-lo, mas para dar continuidade a algo que ameaça desaparecer, cuja permanência corresponde à essência do mundo. O vovô, mais que ninguém, tem o dever de oferecer aos construtores do futuro o que o filósofo Immanuel Kant chamou de “imperativo categórico”. Ou seja, o neto (a) aprenderá dele os valores, os costumes e os deveres morais que merecem se tornar universais.
Abordo esta contingência da vida, pois o momento que atravessamos está pleno de desvios e de promessas de um futuro de demolição do homem, sua transformação em um ser irreconhecível e a civilização ameaçada de morte.
Quem assistiu no domingo passado a manifestação política organizada pelo PT, sob o comando do atual presidente da república, reconheceu naquele ato a passagem para uma era marcada pela violência e intolerância, de anarquia, do sexo sem pudor, do uso de drogas, de depredação dos bens públicos e da transformação da via pública num palco de barbárie e o uso escandaloso das liberdades públicas.
Volto a este tema porque ele expressa a incompatibilidade existente -propícia à desordem moral e a implantação de uma sociedade sem leis – na qual impera a esbórnia, o ódio e a indecência. Seguramente, não é este mundo que desejamos para os nossos netos (as) e temos a esperança que os pais, muitas vezes incultos e inexperientes, se deixem levar pelo canto das sereias.
Aos pais cabem a educação dos filhos, mas isto não quer dizer que os avós omitam sua experiência e seus valores, ainda que não transformem tal comportamento em disputa educacional, mas simplesmente sejam autênticos em suas convicções e as transpareçam sem medo ou titubear.
É preciso não confundir a defesa de valores e conceitos com preferências políticas. Na verdade, os princípios que nos elevam são duradouros e são decisivos na nossa formação humana e moral e deverão interferir sempre que sejamos convocados a escolher diante das armadilhas colocadas pela vida.
Ademais, sabemos que a natureza humana não confirma a tese rousseauniana de que o homem nasce bom e a sociedade o perverte, mas que, em verdade, traz consigo desde o nascimento a maldade, a inveja e outros sentimentos malignos. Quem o corrige é o exemplo humano, a cultura, os ideais, suas escolhas e sua perseverança em busca da perfeição. Desde o início dos séculos, as sociedades identificaram na “velhice” ou na experiência humana um símbolo digno de ser seguido em busca de sua correção humana e disso os avós podem ser os beneficiários, na maioria dos casos.
Até o último suspiro serei fiel a meus netos (as). Direi a eles enquanto puder falar e escrever o mesmo que C.K.Chesterton, em “O que há de errado com o mundo”: “A maior parte da liberdade tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.”



