Quando os japoneses atacaram a base americana de Pearl Harbor, de forma traiçoeira e covarde, matando mais de dois mil americanos e dizimando boa parte da frota naval dos Estados Unidos no Pacífico, o Presidente Roosevelt, em discurso no Congresso, declarou guerra às potências do Eixo e designou aquele ato vil dos japoneses o dia da infâmia.
A reunião plenária do Supremo Tribunal Federal-STF, a ser realizada no próximo dia 15, poderá ser considerada o “dia da infâmia”, ainda que não seja um episódio de guerra e não implicar nos desdobramento sangrentos em nível internacional, tem a dimensão de uma catástrofe nacional, pois, em toda nossa história, a despeito das guerras e outras vicissitudes que nos acometeram, representa o suicídio da nossa civilização.
A ditadura, agravada a parir de 2019 com a instauração do chamado Inquérito do Fim do Mundo, nos arrastou para a maior crise moral, comum em toda ditadura operada por uma terrível e inédita coalizão entre os poderes da república e o consentimento das Forças Armadas, cujo consectário é conhecido por todos.
O dia da infâmia será vivido pelos brasileiros em meio ao torvelinho de incertezas. Nenhum dos nossos cidadãos pode dizer qual será o veredito de um colegiado que vai se deparar com os crimes mais torpes, praticados silenciosamente e sob a proteção da censura e do medo da sociedade envolvida.
Poderão os magistrados decidirem pela investigação dos bandidos de toga ou se apegarem a filigranas processuais, tais como afirmou um jornalista conhecido, segundo o qual “poderosos aprenderam que não precisam provar a inocência. Basta anular a investigação”. Nesse dilema, uma Nação inteira debate-se perplexa e uma pletora de decisões, ofícios, despachos alimentam as dúvidas que tudo pode acontecer, sobretudo para inocentar os culpados e seus cúmplices, sendo um deles o próprio Presidente Lula da Silva.
Leonardo da Vinci, muitos séculos atrás, chamou nossa atenção e como um raio em céu azul exclamou para toda a posteridade: “quem não castiga o mal, ordena que seja feito”.
Apesar de tudo, resta uma gota de esperança. As decisões adotadas até agora oriundas da lucidez do Relator André Mendonça, e muitas outras da lavra do Presidente Edson Fachin, incógnitas indecifráveis, poderão, como interpretam alguns analistas, proteger das manobras de alguns Ministros e do Procurador Geral da República que pretendem adiar as decisões, empurrá-las para as calendas gregas, até que possam revitalizar a ditadura moribunda e seus instrumentos inconstitucionais.
Sem dúvida, no dia da infâmia, o que julgaremos somos nós mesmos, muito antes de reconhecer nos criminosos os responsáveis pelo descalabro moral que nos sufoca e envergonha. É a nossa consciência humana que está em jogo, o desprezo pelo crime e a mentira, o que realmente queremos ver, afinal, triunfante. Ninguém melhor que Hannah Arendt desmascarou esses abutres togados, ao dizer, com a altivez da sua voz: “mentir constantemente não tem como objetivo fazer que as pessoas creiam numa mentira, senão garantir que ninguém creia em nada.
Um povo que já não pode distinguir entre a verdade e a mentira, não pode distinguir entre o bem e o mal. E um povo assim, privado do poder de pensar e julgar, está, sem saber nem querer, completamente submetido ao império da mentira. Com gente assim, podes fazer o que queiras”.




