Fico pasmo e intrigado quando imagino um homem que não sabe o que é ele próprio. A angústia de tornar-se um outro a cada nova circunstância que se apresenta, reconhecendo a si próprio como se fora um whisky paraguaio, principalmente quando a falsificação abrange o pensamento político.
Esse homem é Lula da Silva, o presidente do nosso país.
Sob o heterônimo de Álvaro de Campos, o poeta português Fernando Pessoa, em seu poema A Tabacaria, pergunta com a força do seu verso: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?” Como é do domínio público heterônimo é diferente de pseudônimo. O primeiro é a criação de outra personalidade e pseudônimo é um mero nome artístico. Com seu heterônimo desconhecido, Lula proclama-se um esquerdista convicto, cada vez mais socialista e orgulhoso dessa virtuosa classificação. Investido de uma personalidade cambiante e diante de uma outra plateia converte-se adepto dos novos tempos, em que o centrismo político é a corrente que dirige o mundo e da qual participa ativamente.
O dualismo de suas diferentes versões não poupa as correntes religiosas existentes. Frequenta todas. Para uma plateia doméstica abjurou as causas comuns às denominações religiosas, tais como a defesa da família tradicional e cristã, o patriotismo e o gênero binário. Sua outra personalidade heteronômica fez dele um “católico fervoroso”, um crente ajoelhado na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, e ali professa sua fé e declama as mais piedosas orações.
Diz amar e finge proteger as mulheres brasileiras, muitas das quais vítimas de feminicídio em nível recorde em seu governo, apoiador de regimes islâmicos discriminatórios do gênero feminino, ao mesmo tempo que o Governo petista é um deserto de leis e de participação das mulheres nos cargos governamentais.
Lula da Silva é um indivíduo de muitas caras e personalidades. Ele não é um, é vários. Diferente das personagens de Eugène Ionesco, em sua peça Cantora Careca, em que todos personagens carregam o mesmo nome, a fim de que sejam indiscerníveis. Lula é a personificação da mentira, um indivíduo manipulador, que se divide em quantos sejam necessários para iludir e enganar.
“Torne-se quem tu és”, bradou Nietzsche, nos instantes de completa lucidez, salientando que não basta existir, nem equiparar-se às expectativas alheias com a finalidade de obter a aceitação do público alvo do momento. É necessário para ser humano, real, verdadeiro e racional tornar-se ele mesmo, sem falsidades e performances.
Não creio que Lula vai encontra-se com ele mesmo. Ele mesmo não existe mais. Está contaminado pela mentira eterna, intrínseca e incurável. Para sempre, vivo ou morto, carregará o peso insuportável de sua miséria. Quando li Memórias do Subsolo, de Dostoievski, vi com nitidez a imagem nauseabunda desse verme, dizendo a si próprio: “não pude converter-me em nada: nem bom nem mau, nem num sem-vergonha nem num homem honesto, nem herói nem inseto. E agora estou levando meus dias em uma esquina, torturando-me com o amargo e inútil consolo de que um homem inteligente não pode converter-se seriamente em nada; de que só um idiota pode converter-se em algo”.



