O intervalo do Super Bowl sempre foi mais do que entretenimento. É vitrine de poder cultural, afirmação de identidade e, muitas vezes, propaganda silenciosa do que os Estados Unidos desejam projetar ao mundo. Por isso, a presença de Bad Bunny — cantando em espanhol, exaltando símbolos da América Latina e recusando qualquer tradução cultural — não foi apenas um show. Foi um gesto. Ele não é tão conhecido aqui pelo Brasil, porque seguimos imitando, por vida, os Estados Unidos, mas Bad Bunny, porto-riquenho, é hoje o maior artista latino do planeta. Quebrou recordes globais sem abandonar sua língua, sua estética e sua origem caribenha. Seu sucesso não passa pela assimilação ao modelo anglo-americano; passa pela afirmação de uma latinidade que se recusa a pedir licença. Levá-la ao palco mais assistido da televisão norte-americana é, por si só, um ato político.
O contraste com o discurso que ganhou força nos Estados Unidos nos últimos anos é evidente. Sob a influência do trumpismo — marcado por nacionalismo agressivo, retórica anti-imigração e desprezo simbólico pela América Latina — o país voltou a erguer muros, literais e culturais. Bad Bunny fez o oposto: ocupou o centro do espetáculo e falou espanhol para milhões, sem pedir desculpas, sem legendas, sem concessões. E foi a maior audiência da história do famoso show do intervalo do Super Bowl.
Enquanto o discurso político tenta empurrar os latinos para a margem — como mão de obra, problema ou ameaça — o palco mostrou outra realidade: a cultura latina não está à margem do império; ela pulsa dentro dele. Consome, cria, lidera tendências e redefine o que é “mainstream”. O Super Bowl, tradicional bastião da estética americana, tornou-se por alguns minutos um território latino. Há algo profundamente simbólico nisso. O mesmo país que debate deportações em massa, vibra com ritmos caribenhos. A mesma sociedade que politiza o idioma espanhol como ameaça cultural o consome como espetáculo global. Bad Bunny escancarou essa contradição sem discursar uma única frase política.
No fim, o recado foi claro: a América Latina não está pedindo espaço — está ocupando. E talvez seja justamente isso que incomode certos projetos de poder. Porque quando o centro do império canta em espanhol, já não se trata mais de minoria, mas de mudança estrutural. Em certo momento, ele disse: “Seguimos aqui...”.



