Era meu propósito tecer consideração sobre a luta que travamos durante o regime militar, particularmente a minha participação nos longos e perigosos anos de sua malfadada existência, atestada, inclusive pelo Habeas Data que requeri à ABIN, baseado na Constituição, no qual é descrita, em cerca de trinta páginas, com os selos da República, as perseguições e prisões de que fui vítima.
Todavia, isto consumiria infindáveis páginas. Prefiro iniciar minhas observações a partir da Assembleia Nacional Constituinte – ANC, de que fui Primeiro Secretário e editor de seus principais veículos de comunicação. Consiste este artigo em analisar o panorama político, que se desenrolou nos dias crepusculares do fim do regime militar.
A ANC reuniu-se sob o signo de duas vertentes políticas. O conflito entre o que restava do regime exaurido por suas próprias contradições e da lura incessante dos democratas, de um lado, e de outro os remanescentes das guerrilhas urbanas e rurais em que se envolveram forças esquerdistas no inconsequente e lastimável afã de levar o regime à derrota e a consequente instauração da ditadura do proletariado, todos devidamente anistiados.
Como é do conhecimento de toda a Nação, a união das correntes democráticas do país, sem exceção, sob o comando de Ulysses Guimarães, conduziu o Brasil à reconstitucionalização plena, abortando, depois de longa navegação, no continente das liberdades.
Para o êxito dessa longa travessia, teve de enfrentar aquelas correntes esquerdistas que consideram a Constituinte um arranjo exclusivo da burguesia dominante e um entrave à sociedade socialista que pretendiam implantar. Além desta visão equivocada sobre o desenvolvimento da História, elas entendiam que a Constituição seria uma aparato particular e não a expressão de uma sociedade unida recuperando seus direitos usurpados.
Esse confronto iria estender-se por anos a fio. A sociedade democrática, duramente conquistada, cuja construção implicava em valores essenciais do povo brasileiro, lidava com esta visão, lídima representante, por mais de uma vez, de uma minoria recalcitrante, que insistia com nosso povo em cultivar a morte, a divisão dos brasileiros e o passado.
A tão sonhada Revolução mudou de nome e de estratégia. José Dirceu disse que eles iriam tomar o poder e que isto não significa ganhar eleições. Significa tomar as cortes de justiça, as instituições, as universidades, as escolas, os sindicatos e a mídia. Suas concepções ideológicas beberam em fontes substitutas das envelhecidas teorias do marxismo tradicional e foram buscar inspiração no filósofo italiano Antônio Gramsci e na plêiade da Escola de Frankfurt.
Em lugar da luta de classes, preconizada por Karl Marx, o conflito entre o capital e o trabalho, passou a obedecer as regras do “identitarismo” e da filosofia Woke, restando a sociedade dividida entre pretos e brancos, veados e homos, homens e mulheres e uma verdadeira degeneração de gêneros. A família, a arte, a cultura, os valores éticos, a linguagem e a civilização ocidental nada mais tem significado para o homem massa.
Nesse ambiente de transformações morais essas forças políticas reviveram e encontraram terreno fértil para os seus propósitos. Frédéric Bastiat profetizou que “quando a pilhagem se torna um modo de vida, os homens criam um sistema jurídico que a autoriza e um código moral que a glorifica”.
Os acertos e desvios da difícil empreitada de erigir novamente um regime democrático caiu por terra diante das quimeras oferecidas pelos vendedores de ilusão e suas propostas revolucionárias. O ovo da serpente revelou que “não há negócio mais lucrativo que lutar por direitos que já se têm, em nome de opressões que não existem, com o dinheiro daqueles que se tacha de opressores”. Com essa cantilena, tão bem descrita por Thomas Sowell, lograram chegar ao poder político e implantaram a mais cruel das ditaduras.
Os derrotados de ontem são os vencedores de hoje. Novamente Sowell: “os intelectuais dão às pessoas que já tem a desvantagem da pobreza outra desvantagem adicional: a de que são vítimas”, e convencem o país de vitimados que a supressão das liberdades e a construção do socialismo do século XXI é a libertação final.
Ergue-se um fenômeno. A transformação do esquerdismo - a “doença infantil” de que nos fala Lenin - em uma ideologia repressora, promotora de prisões arbitrárias, exílios, torturas, violações constitucionais, censura, corrupção disseminada nos poderes da república. O ovo da serpente, chocado no ninho promissor da Assembleia Nacional Constituinte”.



