As nuvens negras que pareciam dissipar o “relacionamento” entre Trump e Delcy Rodríguez, de repente cederam lugar ao inesperado. A presidente substituta da Venezuela anunciou um projeto de lei, a ser submetido à Assembleia Nacional, concedendo anistia geral a todos os prisioneiros políticos encarcerados injustamente pela ditadura chavista desde 1999 e determinou o fechamento do tenebroso centro de torturas, o Helicóide, e sua transformação em um ginásio esportivo.
Este acontecimento auspicioso exprime a correção do expediente adotado pela Casa Branca para operar a transição democrática do país caribenho. As ditaduras falecem por colapso – quando se instalam crises econômicas e políticas profundas – ou por transições negociadas, entabuladas pelas correntes democráticas e o antigo regime.
No caso venezuelano, a transição se dá através de uma intervenção norte-americana. Uma demonstração cabal do poderio militar dos americanos e a captura bem sucedida do ditador Nicolás Maduro, numa ação espetacular das forças especiais dos Estados Unidos. Os acontecimentos do dia 03 de janeiro foram suficientes para desestruturar a capacidade de defesa dos venezuelanos, mas não dissolveu o regime e suas estruturas de poder.
Diferentemente do que ocorreu anos atrás no Iraque, a invasão norte-americana e ocupação do território iraquiano eliminou o ditador Saddam Hussein e introduziu um novo regime, apoiado pelos Estados Unidos. O consectário deste experimento iraquiano foi a explosão do terrorismo e a prolongada guerra contra a ocupação estrangeira do país.
A lição iraquiana não passou despercebida por Trump. O presidente norte-americano optou por não ocupar a Venezuela, tão pouco destituir os integrantes da máquina governamental que, como no Iraque, converteram-se na base social da rebelião civil contra a ocupação estrangeira.
Consistia a estratégia norte-americana em matar a cobra com seu próprio veneno, sem eliminar a sua presença futura no confronto legítimo da democracia a ser construída no país, com a participação eleitoral, última etapa da transição, de todas as forças políticas existentes no cenário político.
A lei da anistia é o resultado da tutela norte-americana e um passo decisivo para a pacificação do país. O fim das torturas, prática típica dos regimes totalitários, simbolizada no Helicóide, edifício onde era largamente executada, não exime os praticantes de pagar seus crimes nos processos futuros da democracia reinante.
Ainda há um longo caminho a percorrer e enfrentar novos abalos que poderão advir, afinal, por ser a estratégia mais adequada, não quer dizer que seja a mais segura e capaz de alcançar os objetivos colimados. É preciso considerar que as dificuldades a ultrapassar encontram-se latentes nos poucos países que contestam a ação norte-americana, a exemplo do Brasil e do seu presidente, Lula da Silva, aliado fidagal de Maduro, temeroso de consequências que não hesita em expressar. Em recente reunião com o MST Lula afirmou: “não consigo acreditar, ontem foi ele, amanhã pode ser eu”.
É bom lembrar que os Estados Unidos, assim como a China, têm claro seus objetivos geopolíticos. Ambos realizam políticas externas visando dar conta deste objetivos. Marco Rubio definiu, de forma iniludível, a visão da administração Trump: “sob a administração Trump, não vamos ter um país como a Venezuela em nosso próprio hemisfério, dentro de uma esfera de controle e como ponto estratégico para o Hezbollah, para o Irã e para qualquer outra influência maligna no país e no mundo. Isso simplesmente não vai existir”.
Outros raios cairão dos céus da Venezuela!



