Xi Jiping, o Presidente da República Popular da China e Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês, foi muito feliz ao citar, em um dos seus discursos durante a visita de Donald Trump, o Presidente dos EUA à China, quando trouxe à tona a figura do pai da História no mundo Ocidental, Tucídidis, a fim de lembrar que, ao longo da história humana, a exemplo do que aconteceu entre Atenas e Esparta, na Grécia clássica, duas potências, uma poderosa, outra em ascensão, a guerra entre elas eclode e causa muitos danos, que devem ser evitados.
Não importa, neste momento e no caso grego, quem sagrou-se vencedor.
De fato China e Estados Unidos, conscientes dos graves problemas que enfrentarão no futuro, como o destino da rica ilha de Taiwan, e os grandes temas da atualidade, a exemplo das transformações de toda ordem, defluentes do avanço da inteligência artificial (IA).
Trump compareceu à potência asiática acompanhado dos líderes empresarias detentores das contemporâneas tecnologias, ensejando acordos e negócios de grande monta. O arrefecimento das tarifas entre os países e a venda à China de duzentas aeronaves da Boeing, são algumas da negociações que prosperaram no histórico encontro.
Mas, não se pode dizer que o encontro entre os presidentes das duas maiores potências mundiais, deu-se apenas por razões comerciais, embora estas foram de grande relevância. A questão de Taiwan continua a ser um ponto de tensão irremovível no contencioso dos dois países. Xi Jiping rearfirmou o compromisso histórico da China de reintegrar ao seu território a ilha perdida desde a revolução chinesa liderada por Mao Tze Tung. Marco Rubio imediatamente declarou a proteção política e militar norte-americana à ilha, distante apenas setenta milhas náuticas da China continental.
Como não poderia deixar de ser, a guerra do Irã ocupou lugar destacado nas discussões diplomáticas, antevendo-se uma redução, ainda desconhecida, do apoio diplomático e militar da China ao país dos aiatolás. O fechamento do estreito de Ormuz, capitaneado pelos iranianos, prejudica diretamente a China, dependente do petróleo, transportado através do estreito afetado pelo conflito. Em mais um aceno comercial, os EUA fornecerá o petróleo de que os chineses necessitam.
A meu juízo, creio que esta diplomacia presidencial fecundou os assuntos mais urgentes e preocupantes do ambiente geopolítico do mundo. Trump e Xi, a despeito de suas divergências conhecidas, fizerem mais que uma simples declaração de intenções. Reconheceram a necessidade de uma política de cooperação, na regulação e desenvolvimento da inteligência artificial.
O diálogo e a transparência devem orientar o uso e o avanço da inteligência artificial, de modo que essa novíssima tecnologia possa ser exposta para os dois países, ainda que eles tenham suas regras e medidas, ou seja, o mesmo procedimento adotado pelas superpotências durante a corrida nuclear.
É muito significativo que o diálogo travado entre os dois presidentes não envolvesse o hemisfério ocidental, principalmente a política norte-americana que está sendo posta em prática pela potência norte-americana, no seu afã de desenhar uma nova configuração geopolítica nas Américas. O silêncio chinês revela uma sintomática anuência e a disposição de mantê-la inalterada.
Mais do que Trump pudesse prospectar para o futuro, foi Xi quem disse ao final, com a plena concordância do líder norte-americano, que “as mudanças estão acelerando no nosso século e o cenário político está cheio de turbulência e transformação. O mundo está se aproximando de uma nova encruzilhada. China e Estados Unidos podem superar a armadilha de Tucídidis. E criar uma nova era. Podemos trabalhar juntos para enfrentar os desafios globais? E promover mais estabilidade no mundo?
Sentir falta, apenas, já que era uma conversa de presidentes e versava também sobre guerra, de uma mesa de bar e algumas cervejas bem geladas!
Para Xi e também para Trump podem se dar as mãos. Então, mãos à obra, sem cervejas e mesa de bar!
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