A visita do Aláàfin ao Brasil em 2026: um fiasco lusitano?

Agenda incluía atividades diplomáticas, acadêmicas e culturais

Por Da Redação
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A visita do Aláàfin ao Brasil em 2026: um fiasco lusitano?

Foto: Divulgação

A visita oficial de Sua Majestade Imperial, o Aláàfin de Oyó, Oba Akeem Abimbola Owoade I, à Bahia, em julho de 2026, foi anunciada como um acontecimento histórico para as relações entre a Nigéria, a diáspora iorubá e o Brasil. A agenda incluía atividades diplomáticas, acadêmicas e culturais, além da participação em eventos vinculados ao projeto de internacionalização do patrimônio histórico de Oyó e ao lançamento do livro ÒYÓ: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá, fruto da cooperação entre universidades brasileiras e nigerianas e o Palácio Real de Oyó.

Para muitos terreiros de candomblé e lideranças religiosas afro-brasileiras, entretanto, a visita possuía um significado muito maior do que uma agenda institucional. Havia a expectativa de um reencontro espiritual entre a diáspora e uma das mais importantes instituições históricas do mundo iorubá. Em diversos segmentos do candomblé, o Aláàfin é reconhecido como uma autoridade de profundo valor ancestral, associado à memória de Ṣàngó, rei divinizado de Oyó, cuja presença permanece viva nas tradições religiosas afro-atlânticas.

Não era um acontecimento banal. Nunca foi um feito banal. Era, para muitos, a materialização de um reencontro ancestral em terras baianas.

Justamente por isso, o que deveria ter sido uma celebração da memória compartilhada acabou transformando-se, para muitos participantes, em motivo de frustração, inquietação e reflexão.

Desde os primeiros dias da visita surgiram críticas à ausência de uma agenda pública transparente. Lideranças religiosas, pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais e instituições culturais relataram dificuldades para obter informações sobre horários, deslocamentos e critérios de participação. Alterações de programação ocorreram sem comunicação prévia, convidados foram surpreendidos por mudanças de última hora e diferentes segmentos dos povos de terreiro sentiram-se excluídos de um acontecimento que, em sua essência, deveria promover diálogo, reconhecimento e aproximação.

Grande parte dessas críticas convergiu para uma organização liderada por uma senhora branca portuguesa, responsável pela mediação da visita. Mais do que discutir indivíduos, contudo, os acontecimentos convidam a uma reflexão sobre os modelos de representação que vêm sendo construídos entre Oyó e a diáspora brasileira.

Toda mediação cultural produz poder. Quem organiza agendas, define interlocutores, estabelece prioridades e controla os canais de acesso também influencia quais narrativas serão fortalecidas e quais permanecerão invisíveis. O mediador deixa de ser apenas uma ponte entre culturas quando passa a ocupar posição de protagonismo na própria narrativa que deveria apenas facilitar.

Foi justamente nesse contexto que surgiu uma inquietação ainda mais profunda do que os próprios problemas de protocolo.

O que gera preocupação é a percepção de uma movimentação que parece buscar a centralização e o controle da narrativa da herança iorubá na Bahia por lentes de uma pessoa que sequer faz parte da tradição iorubá. Não se trata de negar a importância da cooperação internacional, tampouco de questionar o diálogo entre África e diáspora. O que preocupa é a possibilidade de que um patrimônio coletivo passe a ser apresentado, organizado e legitimado a partir de uma mediação excessivamente centralizada.

Oyó ocupa um lugar extraordinário na história política e cultural dos povos iorubás. Contudo, a civilização iorubá jamais foi construída por um único reino, uma única cidade ou uma única autoridade. Ifẹ̀, Kétu, Ẹ̀gbá, Ìjẹ̀bú, Ekiti, Ondo, Ìjẹ̀ṣà e tantos outros centros participaram dessa construção histórica. Da mesma forma, a diáspora brasileira preservou essa herança por meio de centenas de comunidades, casas tradicionais e linhagens religiosas que jamais estiveram subordinadas a uma única narrativa.

Essa perspectiva levanta questões que ultrapassam o campo religioso. Quando uma narrativa procura se consolidar por meio do controle dos acessos, da formação de alianças estratégicas e da legitimação concedida por determinados grupos, acende-se um alerta que alcança os campos do patrimônio cultural, da historiografia, da ética e dos direitos culturais.

Quem efetivamente ganha legitimidade institucional, acadêmica, religiosa ou política quando a história iorubá passa a ser narrada a partir de um único centro de mediação?

Quem define quais comunidades serão recebidas?

Quem escolhe quais vozes serão ouvidas?

Quem permanece à margem desse processo?

Talvez o aspecto mais preocupante não seja a existência de mediadores, mas a possibilidade de que a mediação deixe de servir ao patrimônio coletivo para disputar o protagonismo da própria história que deveria apenas aproximar.

Essa inquietação tornou-se ainda mais evidente em um dos episódios mais comentados da visita. Constava da programação um encontro no tradicional Tuntun, na Ilha de Itaparica, reconhecido como uma das mais respeitadas casas de candomblé do Brasil. A comunidade preparou cerimônias, homenagens e toda a estrutura necessária para receber a comitiva. Sacerdotes, iniciados e convidados aguardaram durante horas a chegada da comitiva. O Alaafim nunca apareceu. Pior: segundo os relatos da própria comunidade, não houve uma comunicação considerada adequada sobre o cancelamento, nem qualquer explicação formal para o cancelamento. 

Num contexto diplomático isso já seria motivo de constrangimento. No contexto das tradições iorubás, em que hospitalidade, respeito e reciprocidade constituem valores fundamentais, o episódio assumiu um significado ainda mais sensível.

Talvez o maior legado da visita de 2026 não esteja nas cerimônias realizadas, mas nas perguntas que ela deixou.

A visita do Aláàfin revelou como a mediação da cultura iorubá entre Oyó e a diáspora pode ser capturada por modelos centralizadores de representação que, ao concentrarem a autoridade de narrar, selecionar e legitimar memórias, acabam reproduzindo práticas de colonialidade incompatíveis com a pluralidade histórica da civilização iorubá.

Não podemos negar a grandeza de Oyó. Tampouco diminuir a importância histórica do Aláàfin para a diáspora. O ponto central é outro: reconhecer que a força da civilização iorubá sempre residiu na coexistência de diferentes centros políticos, espirituais, intelectuais e comunitários. Sua riqueza jamais esteve na uniformidade, mas na pluralidade.

O fiasco organizacional que marcou a visita do Aláàfin ao Brasil deve servir de alerta para futuras iniciativas internacionais envolvendo os povos de terreiro e a diáspora iorubá. Se o propósito é construir pontes sólidas entre Oyó e o Brasil, será indispensável adotar protocolos mais transparentes, equipes de mediação cultural mais preparadas e uma postura verdadeiramente respeitosa diante da diversidade de tradições que mantêm viva a herança iorubá fora da África.

O Brasil também é negro. E merece respeito

Porque a memória iorubá no Brasil não pertence a uma única cidade, a uma única instituição, a uma única narrativa ou a um único grupo de mediadores. Ela pertence à pluralidade de vozes que a mantiveram viva por séculos e que continuam a recriá-la cotidianamente nos terreiros, nas comunidades tradicionais, nas famílias e nos territórios de ancestralidade.

E talvez esta seja a principal lição deixada pela visita de 2026: a herança iorubá somente permanecerá fiel à sua própria história se continuar sendo construída pela diversidade de seus povos, de suas tradições e de suas memórias, nunca pela concentração da autoridade sobre aquilo que sempre foi coletivo.

Autores

Janete Lis da Rocha é mestranda em Museologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA),   desenvolve pesquisas sobre patrimônio cultural, museologia afrocentrada, memória e civilização iorubá.

Paola A. Ferreira é diplomata civil humanitária, jornalista e pesquisadora das tradições e práticas religiosas iorubás. Ela é Iyalorixá do Candomblé e da tradição dos Orixás de Oyo (Nigéria), dedicando-se ao estudo, à preservação e à difusão do conhecimento, da espiritualidade e do patrimônio cultural iorubá.

Príncipe Bamidele Asaju é o Coordenador Mundial do Egbe Omo Yoruba Ni Agbaye/Museu Mundial Yoruba Brasil.

Por Janete Lis da Rocha, Paola A. Ferreira e Bamidele Asaju

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