Brasil tem 241 mil empregadores a menos que no pico da série histórica
Conforme o IBGE, o país tinha quase 4,2 milhões de empregadores no trimestre até novembro de 2025, período mais recente com estatísticas disponíveis

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
LEONARDO VIECELI
O número de empregadores ainda não retomou o patamar pré-pandemia e segue abaixo do pico da série histórica no Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O cenário destoa do registrado por trabalhadores por conta própria e funcionários dos setores privado e público, que vêm renovando recordes.
Conforme o IBGE, o país tinha quase 4,2 milhões de empregadores no trimestre até novembro de 2025, período mais recente com estatísticas disponíveis.
Isso significa uma baixa de 5,5% ou 241 mil a menos na comparação com a máxima da série (4,4 milhões), encontrada no trimestre até dezembro de 2018.
A pandemia gerou restrições de mobilidade a partir de 2020, e a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que a Covid-19 não era mais uma emergência em maio de 2023.
Os dados do IBGE são da Pnad Contínua, iniciada em 2012. Na pesquisa, são considerados empregadores aqueles profissionais que exploram um negócio próprio com pelo menos um funcionário.
"A pandemia destruiu muitas empresas, especialmente as pequenas, e gerou um processo de concentração econômica. A demanda foi abocanhada por empresas maiores com capacidade de se adaptar", diz o economista Marcelo Portugal, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), ao analisar o quadro dos empregadores.
De acordo com ele, outro fenômeno que pode explicar o cenário é o avanço do trabalho por conta própria (sem funcionários) ou da chamada pejotização quando um profissional abre uma empresa e presta serviço para outra, sem vínculo na CLT.
"A empresa unipessoal cresceu muito. Tem muita gente, especialmente no setor de serviços, que não precisa ser empregada. A tecnologia ajuda", afirma.
A empreendedora Miriam Catib, 44, tinha um bufê e um espaço de eventos com quatro empregados na capital paulista antes da pandemia. Com a crise, ela fechou o negócio em 2022.
Miriam afirma que migrou para a condição de MEI (microempreendedora individual), trabalha agora por conta própria e não tem mais funcionários. Ela passou a fornecer refeições para eventos, mas sem um espaço fixo.
"Costumo dizer que hoje sou o bufê Sidney Magal: me chama que eu vou", brinca Miriam, em referência a uma das músicas do artista.
O economista Rodolpho Tobler, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que a saída da pandemia ocorreu sob condições macroeconômicas desafiadoras no país, o que inclui os juros altos.
Isso, segundo ele, pode ter pesado para o contingente de empregadores seguir abaixo do pico.
Na visão de Tobler, o avanço do trabalho por conta própria e a criação de empregos nos últimos anos também são possíveis explicações.
De acordo com a Pnad, tanto os empregados do setor privado (quase 53 milhões) e do serviço público (13,1 milhões) quanto os trabalhadores por conta própria (26 milhões) renovaram os recordes da série no trimestre até novembro.
"Quando uma pessoa perde a ocupação de empregadora, se ainda tem apetite para criar uma empresa, pode ir para o MEI, para o trabalho por conta própria. É algo mais fácil de fazer", diz Tobler.
"E tem aquelas pessoas com uma aversão maior ao risco, que acabam indo para uma empresa privada ou pública. Muitas vezes o rendimento é menor, mas tem um aparato de segurança que não havia antes."
Com base em dados da Pnad do segundo trimestre de 2025, um estudo de Tobler e outros pesquisadores do FGV Ibre indicou que, em média, os empregadores eram mais velhos (46 anos) do que os trabalhadores por conta própria (44 anos).
A análise também apontou que a escolaridade média dos empregadores (12,6 anos de estudo) superava a dos trabalhadores por conta própria (10,5 anos).
"Com idade mais avançada e qualificação mais alta, depois do impacto da pandemia, é natural que ele [ex-empregador] possa buscar outro caminho", afirma Tobler.
Em 2023, Irma do Nascimento Madureira, 73, montou com o filho uma granja de ovos no município goiano de Santo Antônio do Descoberto, perto do Distrito Federal.
Segundo ela, a empresa chegou a ter dois funcionários e cerca de 2.000 galinhas, mas as atividades foram interrompidas no ano passado, após uma queda na produção.
Irma afirma que a escassez de mão de obra e a dificuldade de entrar em grandes mercados pesaram na decisão. Ela calcula que, para competir e "ganhar dinheiro", seriam necessárias mais de 3.000 aves.
"Aqui em Brasília o pessoal é muito ligado em academia, come ovo demais, mas senti a dificuldade da mão de obra e de não poder entrar num grande mercado", diz.
Para o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, os custos de instalação de uma empresa empregadora e o cenário macroeconômico, influenciado pelos juros altos, limitam a abertura de negócios com funcionários.
De acordo com ele, sem "muitas brechas", a reforma tributária pode beneficiar os empreendedores, mas não de forma imediata o período previsto para a regulamentação vai até 2033.
"A gente vai precisar de alguns outros indicadores macroeconômicos mais favoráveis para que empresas, principalmente micro e pequenas, permaneçam no Brasil", afirma.
DOMÉSTICOS TAMBÉM ESTÃO ABAIXO DO PICO
A exemplo dos empregadores, os trabalhadores domésticos também seguem abaixo do pico da série.
No trimestre até novembro, esse segundo grupo somava quase 5,6 milhões de ocupados na Pnad. É um patamar 9,3% inferior ao recorde (6,1 milhões), registrado até dezembro de 2017.
Com a pandemia, parte da população assumiu as tarefas do lar e deixou de contratar domésticos, indica Bruno. Outra questão que influencia é o avanço da escolaridade, que pode abrir oportunidades de trabalho em outros setores.
"Gerações mais jovens e mais escolarizadas não querem exercer tanto funções braçais", diz o economista.
O ganho educacional explica ainda parte do contexto dos trabalhadores familiares auxiliares, segundo Bruno. O contingente inclui pessoas que não recebem remuneração ao ajudar parentes no trabalho.
Até novembro, o Brasil tinha menos de 1,2 milhão de trabalhadores do tipo, o menor nível já verificado na Pnad. O recorde foi de 2,9 milhões até junho de 2012.
Conforme Bruno, o grupo é bastante vinculado a pequenas propriedades da agricultura familiar, e o país vem assistindo a avanços de grandes produtores nos últimos anos.
O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec, afirma que as mudanças estruturais e tecnológicas do mercado de trabalho favoreceram categorias como a dos ocupados por conta própria.
Segundo ele, a ampliação da oferta de empregos no país também pode ter esfriado a retomada dos empregadores.
"O trabalhador consegue pular de um lugar para o outro de forma rápida com o nível de oferta que existe atualmente", diz.
Até novembro, a taxa de desemprego atingiu a mínima de 5,2% na Pnad. O professor vê condições para o mercado de trabalho seguir "relativamente aquecido" ao menos no primeiro semestre de 2026, já que o período pré-eleitoral pode gerar contratações temporárias.


