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Coletes amarelos: por que movimento voltou a inspirar protestos na França

Entenda como os Coletes Amarelos surgiram na França e por que os protestos ganharam força

Às

Atualizado
Coletes amarelos: por que movimento voltou a inspirar protestos na França

Foto: Reprodução | Redes Sociais

Os protestos que tomaram as ruas da França entre 2018 e 2019 deixaram marcas na política do país e se tornaram referência para novas mobilizações populares. Conhecido como movimento dos Coletes Amarelos, o levante começou após uma proposta de imposto sobre combustíveis fósseis do governo de Emmanuel Macron, mas rapidamente passou a reunir críticas ao custo de vida e às políticas econômicas do presidente.

Agora, o movimento volta ao debate público como inspiração para uma nova onda de manifestações. No sábado, atos convocados nas redes sociais sob o lema “Amarelos e Jovens” reuniram entre 550 mil e 800 mil pessoas, segundo estimativas do governo francês e dos organizadores, respectivamente.

Como surgiram os Coletes Amarelos?

A mobilização começou em reação à proposta de Macron de criar uma taxa sobre o carbono presente nos combustíveis. A medida, associada à política ambiental do governo, provocou insatisfação entre pessoas que temiam arcar com mais despesas em um contexto de pressão sobre o orçamento familiar.

Em 17 de novembro de 2018, cerca de 300 mil pessoas participaram da primeira grande manifestação. Vestidos com coletes amarelos fluorescentes, manifestantes bloquearam estradas e ocuparam rotatórias em áreas rurais e cidades menores.

O tamanho da mobilização surpreendeu até integrantes do governo. Em entrevista à Bloomberg no início de outubro, o ministro das Finanças, Roland Lescure, que já fazia parte do grupo político de Macron à época, reconheceu que a reação não havia sido prevista pela Presidência nem pela oposição.

De imposto sobre combustíveis a revolta nacional

Com o passar das semanas, a pauta deixou de se concentrar na tributação dos combustíveis e passou a incorporar uma insatisfação mais ampla com o custo de vida e as políticas econômicas de Macron.

A dimensão dos atos também mudou. Os protestos ficaram conhecidos por confrontos entre manifestantes e forças de segurança, além de episódios de vandalismo e saques em diferentes pontos do país.

Em dezembro de 2018, a avenida Champs-Élysées, em Paris, foi palco de uma das manifestações mais violentas. O Arco do Triunfo foi vandalizado, o museu instalado no monumento foi saqueado e lojas, carros e restaurantes foram alvo de depredações e incêndios.

Confrontos e feridos marcaram os protestos

A escalada da violência ampliou o embate entre manifestantes e policiais. Imagens de agentes sendo atacados foram usadas por setores da extrema direita francesa para responsabilizar a esquerda pelos episódios e questionar a capacidade do governo de garantir a segurança pública.

Um dos casos que ganhou repercussão envolveu o ex-boxeador Christophe Dettinger, filmado dando socos em dois policiais em uma ponte de Paris. Ele foi condenado a um ano de prisão.

O debate sobre o uso da força pelas autoridades, porém, também se intensificou depois que disparos de armas não letais provocaram ferimentos graves em manifestantes. Estimativas citadas no período apontaram que entre 24 e 40 pessoas perderam ao menos um globo ocular após serem atingidas por balas de borracha. Entre elas estava Jérôme Rodrigues, um dos ativistas ligados ao movimento.

Dados do Ministério do Interior francês divulgados em 2019 contabilizavam aproximadamente 1,9 mil manifestantes feridos, quase 100 deles em estado grave. O balanço também registrava cerca de 1,8 mil policiais, gendarmes e bombeiros feridos.

O que Macron fez para conter a crise?

Diante da pressão nas ruas, o governo anunciou medidas econômicas para tentar reduzir a insatisfação. Macron se comprometeu com mais de 10 bilhões de euros em isenções fiscais e bônus destinados a trabalhadores de baixa renda e aposentados, segundo números apresentados pela Bloomberg.

As concessões contribuíram para a tentativa de recuperar a estabilidade, enquanto a mobilização perdeu força gradualmente.

Qual foi o legado político dos Coletes Amarelos?

Além dos impactos econômicos e da crise de segurança, o movimento colocou em evidência a demanda por maior participação direta dos cidadãos nas decisões políticas.

Uma das propostas que ganhou espaço foi o Referendo de Iniciativa Cidadã (RIC), mecanismo pelo qual a população poderia convocar uma consulta popular a partir de um número mínimo de assinaturas, sem depender de autorização prévia do governo ou do Parlamento.

A proposta não foi implementada. Macron se posicionou contra o mecanismo, argumentando que ele poderia fragilizar a democracia. Mesmo assim, o tema permaneceu no debate político e chegou a aparecer nos programas de candidatos à Presidência nas eleições de 2022.

A retomada da referência aos Coletes Amarelos em novas manifestações mostra como a mobilização de 2018 continua associada à insatisfação com o custo de vida e à cobrança por mudanças políticas na França.


 

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