Como superar o trauma de uma eliminação na Copa do Mundo: o que acontece emocionalmente com atletas e torcedores!
Aos detalhes...

Foto: Redes Sociais
A eliminação de uma seleção em uma Copa do Mundo costuma ser encarada apenas como uma derrota esportiva. No entanto, do ponto de vista da neurociência, esse tipo de experiência pode desencadear uma resposta emocional muito mais intensa do que a maioria das pessoas imagina. Para atletas e torcedores, o cérebro nem sempre reage apenas ao placar, mas ao significado que aquela experiência representa.
Segundo a biomédica e neurocientista especialista em trauma, Telma Abrahão, grandes eventos esportivos mobilizam mecanismos cerebrais ligados à expectativa, à recompensa, ao pertencimento e à identidade. Durante semanas ou até meses, o cérebro cria cenários, antecipa vitórias e constrói uma narrativa de sucesso. Quando a eliminação acontece, ocorre uma ruptura entre aquilo que era esperado e a realidade.
“Nosso cérebro funciona fazendo previsões o tempo todo. Quando existe uma diferença muito grande entre o que ele esperava viver e o que realmente acontece, surge uma resposta emocional intensa. Não é apenas um jogo que termina; é uma expectativa construída durante muito tempo que se desfaz de forma repentina”, explica.
Nos atletas, esse impacto costuma ser ainda maior. Anos de treinamento, renúncias pessoais e uma identidade construída em torno da alta performance acabam concentrados em poucos minutos de jogo. Quando o resultado não acontece, sentimentos como culpa, vergonha, fracasso e até uma crise de identidade podem surgir.
“A derrota pode ser vivida como uma ameaça à própria identidade. Muitos atletas pensam que decepcionaram o país, que não foram suficientes ou que todo o esforço realizado perdeu o sentido. É uma resposta humana diante de uma experiência de enorme carga emocional”, afirma Telma.
A especialista explica que essas reações não são apenas psicológicas. Após uma eliminação, o organismo entra em estado de estresse, com aumento da atividade da amígdala cerebral, maior liberação de cortisol e adrenalina e redução temporária da atividade do córtex pré-frontal, região responsável pela tomada de decisões, autocontrole e regulação emocional.
“É por isso que vemos jogadores chorando intensamente, se isolando ou tendo dificuldade para falar logo após a partida. O sistema nervoso ainda está tentando processar o impacto daquela experiência”, destaca.
Do lado dos torcedores, embora eles não participem diretamente da partida, o cérebro também pode vivenciar a derrota como uma perda real. Segundo Telma, isso acontece porque o futebol ativa mecanismos profundos de identidade social e pertencimento. “Durante uma Copa do Mundo, as pessoas deixam de torcer apenas por um time. Elas passam a fazer parte de uma identidade coletiva. Quando a seleção perde, muitos sentem que uma parte deles também foi derrotada”.
A especialista ressalta que o futebol também desperta lembranças afetivas importantes. Para muitas pessoas, assistir aos jogos significa reviver momentos da infância, reuniões familiares, lembranças de pais, mães e avós reunidos diante da televisão. Quando essa experiência termina de forma dolorosa, emoções antigas ligadas à perda, rejeição ou frustração também podem ser reativadas.
Cada pessoa, porém, reage de maneira diferente. De acordo com Telma, a intensidade da dor está diretamente relacionada à história emocional de cada indivíduo. “Quem cresceu em ambientes emocionalmente seguros costuma lidar com a frustração de maneira mais flexível. Já pessoas que viveram experiências marcadas por críticas constantes, perfeccionismo ou medo do fracasso podem sentir um impacto muito maior, porque o cérebro conecta a situação atual a experiências emocionais antigas”.
Segundo a neurocientista, sentir tristeza após uma eliminação é uma reação absolutamente esperada. O importante é que essa emoção seja processada de forma saudável. “Superar não significa fingir que nada aconteceu. Significa permitir que o cérebro integre essa experiência como parte da história, e não como uma definição da própria identidade. Tanto atletas, quanto torcedores podem se beneficiar ao acolher a frustração, evitar decisões impulsivas nas primeiras horas, conversar sobre o que sentiram, descansar e buscar atividades que ajudem o sistema nervoso a recuperar o equilíbrio”.
Para os atletas, o acompanhamento psicológico também desempenha papel fundamental na ressignificação da derrota e na prevenção de quadros de ansiedade, depressão, medo de falhar novamente e queda prolongada no desempenho.
A boa notícia, segundo Telma Abrahão, é que o cérebro possui neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de reorganizar conexões e construir novas formas de interpretar experiências difíceis. “A mesma estrutura cerebral que registra uma experiência dolorosa também é capaz de transformá-la em aprendizado e resiliência. No fim das contas, a forma como lidamos com uma derrota revela muito mais sobre o funcionamento do nosso sistema nervoso do que sobre o placar de um jogo. Muitas vezes, o sofrimento não está apenas no que aconteceu em campo, mas na história emocional que cada pessoa leva consigo para assistir à partida”, finaliza.

