Grupos reflexivos buscam prevenir reincidência de violência doméstica no Brasil
Grupo “A Força do Afeto”, da Defensoria Pública, reúne participantes para discutir temas como comunicação não-violenta, diferentes formas de violência de gênero e gestão das emoções

Foto: Reprodução/Defensoria Pública do Estado da Bahia
O Brasil registrou 2.149 feminicídios em 2025, segundo dados do Relatório Anual de Feminicídios, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL). Além disso, a Justiça brasileira concedeu 621.202 pedidos de medidas protetivas, uma média de 70 a cada hora.
Diante desse cenário, iniciativas voltadas à prevenção da violência doméstica têm ganhado espaço no sistema de Justiça. Entre elas estão os chamados grupos reflexivos, encontros educativos destinados a homens que respondem a medidas protetivas ou são investigados por violência doméstica.
Esses grupos funcionam como espaços de diálogo e conscientização sobre relações de gênero, responsabilidade e resolução pacífica de conflitos. A participação costuma ser determinada por decisão judicial, com base em instrumentos previstos pela Lei Maria da Penha (11.340/2006), que permite a inclusão de autores de violência em programas de recuperação e reeducação.
Em Salvador, uma dessas iniciativas é desenvolvida pela Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA). O projeto “A Força do Afeto” reúne participantes em encontros periódicos conduzidos por profissionais de diferentes áreas, como direito, assistência social e psicologia.
Origem do grupo na Defensoria
A criação do grupo reflexivo da Defensoria Pública surgiu a partir da experiência da defensora pública Eveline Portela, titular da 3ª Defensoria dos Juizados Especiais, responsável pela defesa de pessoas que respondem a processos na 1ª Vara de Violência Doméstica de Salvador.
Durante o acompanhamento de casos, ela identificou a necessidade de criar um espaço de escuta que não fosse percebido apenas como punitivo, mas que possibilitasse reflexão e responsabilização.
A partir dessa proposta, foi criado o grupo “A Força do Afeto”, com a participação de profissionais da Defensoria e pesquisadores ligados à Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Da resistência à reflexão
Segundo a analista jurídica da Defensoria Pública, Juliana Brito, os participantes geralmente chegam aos encontros com resistência, por enxergarem o grupo como uma obrigação decorrente do processo judicial.
“No primeiro momento, eles chegam geralmente um pouco chateados, revoltados, angustiados, porque veem esse processo como uma obrigação ligada à medida protetiva”, explica.
Com o avanço das atividades, no entanto, a percepção tende a mudar. Durante os encontros, são abordados temas como comunicação não-violenta, compreensão das diferentes formas de violência de gênero e gestão das emoções.
Os participantes também participam de círculos de construção de paz, oficinas sobre conjugalidade e parentalidade e discussões sobre a legislação de proteção às mulheres.
Escuta e troca de experiências
Apesar de não ter caráter terapêutico, o grupo reflexivo acaba promovendo um ambiente de troca e reflexão pessoal.
De acordo com Juliana, muitos participantes compartilham experiências marcadas por conflitos familiares. “Eles terminam colocando muito para fora o que vivenciaram. Muitos trazem relatos de violências sofridas na infância ou em outros momentos da vida”, afirma.
Essas trocas ajudam os participantes a compreender melhor os conflitos que levaram às medidas protetivas e a refletir sobre suas responsabilidades dentro dessas situações.
Diferentes contextos de conflito
Embora muitas vezes associados apenas a conflitos entre casais, os grupos reflexivos podem envolver diferentes tipos de relações familiares.
Segundo Juliana, há casos que envolvem conflitos entre mães e filhos, tios e sobrinhas e também situações envolvendo casais homoafetivos.
A proposta é que os participantes reflitam não apenas sobre possíveis atos de violência, mas também sobre a escalada de conflitos e as responsabilidades individuais dentro dessas situações.
Um projeto em construção
Para Juliana Brito, o grupo tem potencial de crescer para além do trabalho com os adultos. Segundo a analista, a ideia é que o trabalho do grupo também afete aos filhos envolvidos em processos de medidas protetivas.
"Os filhos são também vítimas, estão também inseridos nesse processo de violência", reforça.
Vítimas de violência doméstica podem buscar atendimento pelo Disque 180, disponível 24 horas, pelo 190 em emergências, ou pessoalmente em delegacias, defensorias públicas e centros de referência da mulher.


