Lula diz que não discutiu com Trump classificação de facções criminosas
Entretanto, o presidente brasileiro destacou que os dois discutiram temas considerados tabus, entre eles o combate ao crime organizado e ao narcotráfico

Foto: Palácio do Planalto
ISABELLA MENON E RENAN MARRA - O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou após encontro na Casa Branca com seu homólogo americano, Donald Trump, que os dois não discutiram a designação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas.
"Não foi discutido isso", disse o líder brasileiro ao ser questionado sobre o assunto pela Folha de S.Paulo.
Lula, entretanto, disse que os dois discutiram temas considerados tabus, entre eles o combate ao crime organizado e ao narcotráfico.
O brasileiro disse ter defendido ao presidente americano que a repressão isolada não resolve o problema da produção de drogas na América Latina. Para ele, é necessário criar alternativas econômicas para os países produtores de drogas. "Como você vai fazer um país deixar de produzir coca se você não oferece uma alternativa de produto para que alguém possa plantar e ganhar dinheiro?", disse ele.
Lula afirmou ter proposto a criação de um grupo internacional de combate ao crime organizado, envolvendo países da América Latina e, possivelmente, outras nações, "quiçá de todo o mundo".
"Nós criamos uma base na cidade de Manaus para combater o crime organizado, o tráfico de armas e de drogas na fronteira brasileira, com a participação de delegados da polícia de todos os países da América do Sul. Se os EUA quiserem compartilhar e participar conosco, estarão convidados", afirmou Lula.
O governo Lula tenta evitar a mudança na designação do CV e do PCC. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o Planalto avalia que a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro.
Em suas redes sociais, Trump escreveu que o encontro correu "muito bem" e que os líderes discutiram vários assuntos, incluindo comércio e tarifas. O republicano não mencionou debates relacionados ao crime organizado.
Já o petista afirmou na entrevista coletiva que a reunião marcou "um passo importante" para fortalecer a relação histórica entre os dois países e defender o multilateralismo diante das tensões comerciais globais. "Saio daqui com a ideia de que nós demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os EUA", disse.
O presidente ressaltou que Brasil e EUA são "as duas maiores democracias do hemisfério" e afirmou que a boa relação entre os países pode servir de exemplo internacional. Segundo ele, o tema já havia sido tratado em conversa anterior com Trump, durante encontro na Malásia.
Lula também disse ter destacado a relevância histórica dos EUA para a economia brasileira, lembrando que, ao longo do século 20, o país foi o principal parceiro comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, criticou o que chamou de perda de interesse de Washington pela América Latina nas últimas décadas.
Segundo o presidente brasileiro, os EUA passaram a olhar a região principalmente sob a ótica do combate ao narcotráfico, enquanto deixaram de ampliar investimentos e parcerias econômicas.
"É importante que os EUA voltem a ter interesse nas coisas do Brasil", afirmou. "Muitas vezes fazemos licitações internacionais para rodovias ou ferrovias e os EUA não participam. Quem participa são os chineses."
Lula comparou ainda a postura americana à da União Europeia, dizendo que o bloco também teria reduzido sua atenção à América Latina após priorizar o Leste Europeu. Para o presidente, o cenário internacional atual fez o mundo voltar a perceber a importância estratégica da região.
O brasileiro afirmou também que os dois conversaram sobre terras raras e tarifas, mas que não chegaram a falar sobre o PIX, alvo de investigação comercial nos EUA. Lula disse também ter brincado com Trump em relação aos vistos na Copa do Mundo. "Espero que você não venha anular o visto dos jogadores brasileiros. Vamos vir aqui para ganhar. Ele riu", disse.
Antes, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, também afirmou que a reunião foi positiva. Ele disse que os presidentes discutiram as investigações da Seção 301, abertas pelo governo Trump contra o Brasil e que podem resultar em sanções e tarifas adicionais ao país.
O governo brasileiro ressaltou a necessidade de concluir a investigação. As tarifas também entraram na pauta das discussões, e as partes concordaram em voltar a se reunir nos próximos 30 dias para reavaliar o tema, acrescentou ele.
Esta foi a sexta visita do petista à sede do governo americano, sendo a primeira sob Trump. Em mandatos anteriores, Lula visitou a Casa Branca em 2002 - ainda como eleito, antes de assumir o cargo -, 2003 e 2008, em encontros com o então presidente George Bush. Em seguida, em 2009, encontrou Barack Obama e, já em seu terceiro mandato, o brasileiro foi recebido por Joe Biden, em 2023.


