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Ney Matogrosso, com turnê aos 85, diz que idade não é obstáculo e rebate Xuxa

Um dos grandes da MPB, Ney ficou conhecido por novas gerações após o sucesso da cinebiografia "Homem com H"

Por FolhaPress
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Ney Matogrosso, com turnê aos 85, diz que idade não é obstáculo e rebate Xuxa

Foto: Reprodução/ Redes Sociais

LUCAS BRÊDA -  Menos de um mês depois de completar 85 anos, Ney Matogrosso anunciou uma das maiores turnês de sua carreira. Com shows em estádios do Brasil espalhados ao longo de 2027, a excursão solidifica o retorno do cantor às multidões, mais de 50 anos depois dos Secos e Molhados, um fenômeno de popularidade nos anos 1970.

"Estou numa demanda [de shows] impressionante, mas já há alguns anos", ele diz à reportagem no camarim do evento em São Paulo em que anunciou a turnê "85 Anos de Ousadia". "Veio aumentando. Sempre tive público, só que agora, de repente, teve uma liberada."

Um dos grandes da MPB, Ney ficou mais conhecido por novas gerações após o sucesso da cinebiografia "Homem com H", de 2025, vista por mais de 600 mil pessoas somente nos cinemas. Foi depois de assistir ao filme, inclusive, que o renomado fotógrafo David LaChapelle topou fazer um ensaio com o artista —o único brasileiro clicado pelo americano— para divulgar a nova turnê.

Mas já desde o pós-pandemia Ney já percebia uma renovação de público, a partir de quando começou a fazer shows em festivais. Depois de cantar no primeiro Rock in Rio, em 1985 —quando foi vaiado por um grupo na frente do palco, que esperava para ver Iron Maiden e Whitesnake—, ele passou a concentrar suas apresentações em espaços menores.
"Eu tinha um certo receio. Vinha de trabalhar só em teatros e fiquei meio receoso de encarar os festivais, mas foi tudo maravilhoso", ele afirma. "Fiz aquele Rock in Rio, e depois algumas participações com outras pessoas, mas show mesmo em festival não fiz mais. Já tem uns quatro ou cinco anos que faço com regularidade."

O receio era não saber qual receptividade teria de um público mais amplo, formado não apenas por fãs. "Você ali com não sei quantas mil pessoas no festival, tudo pode acontecer, né? Mas nunca deu nada errado comigo", afirma. "Isso foi um tranquilizador. Agora me sinto seguro de novo."

Depois dos festivais, passou a ocupar estádios. Primeiro, em 2024, esgotou os ingressos no Nubank Parque, em São Paulo, no então maior show de sua carreira. No ano seguinte, em fevereiro, disse à Folha de S.Paulo que "a experiência foi interessante, mas eu não faria de novo. Sinto muita falta de ter contato próximo com o público". Onze meses depois dessa declaração, ele repetiu a dose, lotando de novo o mesmo espaço.

Ney agora diz que gostou muito de ter feito esses megashows —ainda que da primeira vez tenha odiado o frio, em noite de termômetros abaixo dos 10°C. E também que não se sente mais distante da plateia. "Eu vejo as pessoas, enxergo todo mundo. Quer dizer, de quem está longe você não enxerga o rosto, mas na parte da frente você vê tudo."

O cantor volta à casa do Palmeiras em janeiro para abrir a nova turnê, que chega ao fim no Maracanã, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2027. No meio-tempo, tem shows confirmados em Curitiba, na Arena da Baixada, no Recife, no Classic Hall, e em Belo Horizonte, na Esplanada do Mineirão.

A banda será a mesma que o acompanha nos últimos anos e o repertório será parecido com o de sua turnê mais recente, "Bloco na Rua". "Até a metade é o mesmo, daí para frente mudou tudo", diz. "Tem muito rock, muito Cazuza e ficou mais energético. Adoram aquela abertura, todo mundo canta junto. E eu não podia tirar músicas como ‘Yolanda’ porque as pessoas amam."

Sem querer revelar muito do novo show, Ney dá uma pista —vai encerrar as apresentações com "Simples Desejo", composição de Jair Rodrigues que há anos ele não canta. "Quero acabar com aquele assunto, para as pessoas irem para casa numa boa. ‘Hoje eu só quero que o dia termine bem’."

Conhecido pelas performances libertinas e pela presença de palco, o cantor afirma que a idade "ainda não é um obstáculo". "Eu noto [a passagem do tempo], claro, mas não me impede de nada. Sou um homem magro, sempre fui magro", diz. "Ainda dobro a perna, me abaixo. Nesse sentido não mudou nada."

Faz uns 20 anos que Ney começou a malhar diariamente, tendo ou não uma turnê exaustiva pela frente. Ele era contrário à prática porque acreditava que ficar forte era "coisa de americano". Mudou de ideia quando percebeu que a musculação era mais do que algo saudável —era uma necessidade.

"Antes minha ginástica era andar na areia fofa de cima para baixo", diz. "Meu corpo era duro —bunda dura, perna dura, tudo duro. Aí parei de ir à praia e comecei a sentir falta de um exercício. Desde que comecei [a malhar], nunca mais parei."

Ney não gostou de ser citado por Xuxa no programa Domingão com Huck, na TV Globo. A apresentadora falou do cantor ao comentar a repercussão dos figurinos —em especial um maiô cavado— usados na turnê "O Último Voo da Nave", em que ela retorna aos palcos como cantora.

"Não é uma crítica —porque amo Ney Matogrosso de paixão—, mas a gente vê o Ney com as mesmas roupas, com o corpo mostrando, com a dança e ninguém fala nada. Porque a imagem dele é de homem. A minha imagem é de uma mulher de 63 anos, uma senhora. Não é legal. Eles veem uma mulher e falam: 'Olha que ridícula!'", ela disse.

"Achei que ela não tinha que falar meu nome", afirma Ney. "Sabe a impressão que dá? Que ela está tirando dela para jogar para mim. Mas não adianta. Comigo não rola isso. Nunca rolou. Nunca ninguém me disse que eu estava velho, que eu não podia estar no palco cantando. Nunca ninguém implicou com a minha roupa, sabe?"

Depois desse comentário, ele disse que não queria mais falar sobre a apresentadora. "Não vou tocar mais nesse assunto. Não vou falar o que vi ali que achei errado. Não vou falar."

Os figurinos de "85 Anos de Ousadia" vão recriar indumentárias famosas que o cantor usou ao longo de sua carreira. Elas não serão reproduzidas fielmente, mas repensadas a partir dos modelos originais. Cada um dos dez shows —até agora, cinco foram anunciados— da turnê terá uma roupa diferente.

Um deles será o de "Bandido", usado nas apresentações do disco de 1976. Naquela época, Ney era um símbolo de liberdade e contracultura, um rebelde sob a lente de um Brasil à sombra da ditadura militar e do conservadorismo.

Décadas depois, ele é amplamente reconhecido como um dos grandes intérpretes da música brasileira. Mas não abandona seu espírito insubmisso. "Entendo que estou sendo absorvido, mas não saio da minha maneira de pensar. Sou o transgressor, não é isso? Sempre fui. Não que eu faça nada para ser, mas tenho uma coisa dentro de mim que é. Talvez por ser filho de militar, sei lá, às vezes fico querendo entender isso."

Aos 30 ou aos 85 anos, à margem ou no centro da cultura brasileira, Ney quer continuar sendo sinônimo de autonomia. "Estou indo para um lugar mais estabelecido, mas vou lá e faço o que quero. Canto só o que quero. Vou com a mesma liberdade com que cheguei aqui", diz. "Continuo pensando com a minha cabeça. Nada, nem sucesso, muda meu jeito. Não tenho tempo a perder."

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