A Lógica do Inimigo Externo e a Cegueira Doméstica

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A Lógica do Inimigo Externo e a Cegueira Doméstica

Os Estados Unidos sempre se acharam xerife do mundo, sem qualquer cerimônia ou senso ético, invade, sequestra, ataca, tudo em nome de uma tal política externa de segurança deles, e de há muito estruturada sobre uma premissa conveniente: a transferência da responsabilidade. Seja pela doutrina militar da "guerra ao terror" — que normalizou incursões em solo estrangeiro sob o argumento da legítima defesa antecipada —, seja pela eterna "guerra às drogas", a narrativa oficial prioriza o combate aos sintomas no exterior enquanto negligencia as raízes de suas próprias crises internas. Já se vê por muitas ruas estadunidenses verdadeiros zumbis, sem direção, expondo a mazela de uma sociedade que não pensa no coletivo, mas no individual de ter.

O fato é que ao classificar carteis e redes transnacionais como ameaças terroristas ao seu mundo, o poder militar e diplomático norte-americano arroga para si o direito de violar a soberania de terceiros, subvertendo princípios básicos do direito internacional. No entanto, essa cruzada além-fronteiras esconde uma contradição flagrante. Os Estados Unidos permanecem como o maior mercado consumidor de narcóticos do mundo. O apetite insaciável de sua sociedade por substâncias ilícitas e o capital financeiro nele movimentado são os verdadeiros combustíveis que alimentam o poder de fogo e a capacidade de corrupção das organizações criminosas além de suas divisas. O paralelo entre a ingerência geopolítica e o descuido social interno expõe uma profunda assimetria moral. Combater a produção e o tráfico na América Latina ou no Oriente Médio sem enfrentar a epidemia de dependência química, o sofrimento psíquico e as lacunas do sistema de saúde público norte-americano equivalem a tentar secar o chão mantendo a torneira aberta. A crise devastadora dos opioides e do fentanil no país demonstra que a causa primária do problema não está nas montanhas de outros continentes, mas na dor, na solidão e na vulnerabilidade social de suas próprias cidades.

Exportar o custo humano e a violência da guerra enquanto se ignora a necessidade de acolhimento e tratamento doméstico é mais do que um erro estratégico, é uma fuga ética. Enquanto a busca pela causa for projetada para fora, os doentes do lado de dentro continuarão invisíveis e sem cura. Tudo isso nos gera a perplexidade do declínio de um monstro sagrado, mas o que realmente a mim, me choca, é se naturalizar aqui por estas terras Brasilis que os ianques podem tudo, e merecem aplausos por isto. Estranho.

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