A insatisfação geral com os rumos da vida política brasileira, tendo em vista a corrupção das instituições e a crise econômica prestes a si alastrar, expressam a reivindicação máxima da sociedade pelo retorno a uma ordem democrática. A eventual e desejável vitória das forças oposicionistas não é suficiente para alcançar este magno objetivo. O poder ditatorial não morre apenas pela substituição dos ocupantes dos poderes da República, mas quando se agrupam correntes divergentes e sustentáculos do regime em seus dias crepusculares, para dar origem a uma consistente e diversificada vontade nacional.
O que se impõe agora para dar curso à transição democrática – por mais vagaroso que possa ser o processo- é a negociação política entre todas as forças reais de fora e de dentro do poder, a fim de recuperar as instituições em frangalhos e superar os graves problemas que ameaçam o futuro da nação.
A Democracia constrói-se através da rebelião das massas ou pelo processo de negociação com a finalidade de incluir um conjunto cada vez mais representativo da nação em crise terminal. Negociação não significa renunciar aos –princípios e sim magnificá-los, através de um programa político que, a despeito de futuras divergências, conduza a Nação ao fim do totalitarismo reinante.
Longe de destratar as correntes políticas crescentemente conflitantes com o Governo irresponsável de Lula da Silva, devemos trazê-las para um diálogo construtivo, no qual a via negocial é a mais abrangente e viável, pois não se põe na vertente das saídas insurrecionais, nem almeja uma maioria de 51% apenas, insuficiente para a manutenção da Democracia e de seu ulterior desenvolvimento.
Ainda que a tarefa não seja fácil, tampouco visível a curto prazo, já estão presentes no cenário político do país, elementos que poderão dar sustentação à essa base dialogal e isolar cada vez os obstáculos que impedem as soluções congressuais, principalmente por meio das futuras eleições de outubro deste ano.
Não se deve esperar que o edifício da Ditadura ruirá na Planície Central do país, corroído pela voracidade da crise econômica em sua marcha implacável, nem será preciso dessangrar o corpo da nação para depois costurar-lhe a mortalha. Melhor será a construção de um consenso nacional, que exclua os vestígios da ditadura da toga e a destruição econômica e social do governo petista.
A verdade é que nenhuma força política isoladamente é capaz de propor e conduzir um programa de democratização das instituições nacionais e dar conta de um projeto de recuperação econômica de que carecemos. Mais cedo ou mais tarde, o contencioso político reconhecerá essa verdade inelutável e produzirá um programa que tenha por base a anulação de todos os atos condenatórios forjados pelo STF, que finalmente virá à luz.
O renomado historiador francês Pierre Vilar nos convida a uma reflexão pertinente, diante de um quadro político como o exposto nessas poucas linhas. Ele recomenda ao contrapor a cegueira à racionalidade histórica: “Pensar politicamente exato é pensar exato historicamente”.
Essa sábia advertência quer dizer que não podemos perder a oportunidade, na qual, o regime que já havia definhado na sua base parlamentar de apoio, perde substância nos aparelhos morais e ideológicos, seja do Estado, seja da sociedade civil, começa a regurgitar os seus próprios excrementos, agredindo a família, o cristianismo, os valores e as instituições políticas da sociedade.
Thomas Sowell, extraordinário antropólogo norte-americano, foi, provavelmente mais rude, quando disse que “é difícil imaginar uma maneira mais perigosa de tomar decisões do que deixa-las nas mãos de pessoas que não pagam o preço por estarem erradas”.



