Como os céus é do avião

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Como os céus é do avião

Estive enfermo quase por dois meses e deixei meus leitores livres de mim. O suficiente para ter bem presente na minha memória o espetáculo indizível da Avenida Paulista, ainda que logo que a cortina se fechou perante o palco iluminado, a Nação fechou os olhos para aquele espetáculo singular.

Ali estava a Democracia por inteiro, apelando, quase silenciosamente, que fossem restaurados os valores e princípios que magnificaram a Constituição de 1988. Era de se esperar um pronunciamento das autoridades, aquelas que podem eliminar os inquéritos ilegais e provocar a ação do Presidente da Republica para anistiar os brasileiros, que estão submetidos às odiosas e injustas punições, existentes apenas em regimes totalitários.

O silêncio, contudo, foi ensurdecedor. Não se ouviu sequer um pio. Os donos do poder encastelaram-se em suas mansões e fugiram ao debate político, que se impunha, sobretudo porque os adversários que convocaram a magnifica manifestação pública estavam dispostos ao entendimento. Era um convite ao diálogo político, próprio das democracias e dos povos civilizados.

Era evidente para qualquer observador ou comentarista -hoje tão disciplinado que também eles viram a manifestação com desapreço – que o gigantesco protesto popular ultrapassava os limites de quem o convocara, para expressar o descontentamento do povo brasileiro com os rumos da vida nacional.

Recordo este tema porque, para mim, a manifestação de São Paulo ocupa um lugar de destaque no país. O silêncio a que me referi é um grito de medo e pavor, a que os poderosos percebem que no futuro, não sei quando, terão que prestar contas a uma Nação enfurecida, não mais a que conclamou para o diálogo e o entendimento político. É assim com as Nações submetidas a uma longa noite de arbítrio.

Foi assim quando assistimos o suplício de Ceausescu, na Romenia, ou como Muamar Kadafi na Líbia e outros tantos neste e em outros séculos.

Ao longo de nossa História, sobretudo na transferência do  poder nacional, sempre prosperou o  entendimento à guerra. A leitura indubitável da manifestação da Paulista não deve se cingir ao número de manifestantes, como não deverá reduzir-se a essa matemática ridícula e inexpressiva, a  manifestação programada para o Rio de Janeiro. 

O corpo político nacional, independente da corrente partidária de cada um, tem o dever de interpretar as manifestações populares, medir o alcance de seus objetivos e reivindicações e evitar que o país caminhe para impasses, nos quais não veja outra saída senão a radicalização dos meios com que pretende efetivar as mudanças desejadas pela maioria da população.

Dar as costas para o que as elites representativas dos anseios populares  estão clamando, é um erro estratégico que teremos de lamentar no  futuro, silenciar sobre a profundidade da crise democrática que se instalou no Brasil, é deixar que se perca toda a tradição democrática que se instaurou no país após a promulgação de nossa Carta Magna.

A independência do Brasil teve sangrentas lutas na Bahia e no Pará, mas não passou disso. O Primeiro e o Segundo Império foi um grande pacto que perdurou, a proclamação da República não passou de um golpe militar e transcorreu sem derramamento de sangue e a queda de todas as Ditaduras do regime republicanos se deram com entendimentos e compromissos que restauraram as liberdades e a Democracia. 

Sem afirmar que os entendimentos foram virtuosos e permitiram reconstitucionalizar o país  com base nos avanços da democracia liberal, o fato indiscutível foi que o método político do apaziguamento assegurou a paz social e recolocou o debate político em consonância com a lei.

Que o mundo político não perca de vista a sábia orientação de Edmund Burke, o primeiro  grande teórico das ideias conservadores, quando adverte com maestria: “o exemplo é a escola da Humanidade, a única que pode instruí-la”  
 

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