Victor Frankl passou anos prisioneiro nos campos de extermínio nazistas e sobreviveu. Escreveu O Sentido da Vida. Sim, ninguém vive inutilmente. E qual é o sentido da morte? Também a morte haverá de ter um sentido, senão para que servem as lágrimas que derramamos para os mortos que, muitas vezes, sequer conhecemos.
Henry Borel morreu e por ele nós choramos. Tinha apenas quatro anos de idade e foi brutalmente assassinado pelo padrasto, com a indisfarçável conivência de sua mãe. Os fatos são amplamente conhecidos e a comoção que provocou em todos revela a solidariedade que a todos acometeu.
“Deixem que os mortos enterrem os seus mortos”, teria dito Cristo, a fim de converter a morte em algo pleno de significado. Muitos séculos depois Karl Marx a teria repetido e o que perdurou, não importa quem a pronunciou, foi a ideia de que a morte ultrapassa as providências materiais exigidas para sepultar o corpo, mas incorpora um valor moral ou espiritual, principalmente quando ocorre de forma tão brutal e degenerada, como aconteceu com o menino Henry.
Henry não teria sofrido as terríveis dores do corpo se a sua mãe, que deveria protege-lo e salva-lo das garras assassinas do padrasto, não tivesse participado ativamente do crime e cooperado estupidamente para que ele ocorresse.
O padrasto condenado haverá de carpir por longos 43 anos de prisão a pena que mereceu. A sua doença sem cura, sua maldade inata e sua crueldade fez dele um monstro a ser enjaulado. E a mãe? Por que permitiu que a maldade prevalecesse sobre sentimentos que só a maternidade propicia ao coração feminino?
Algo muito mais bárbaro e doentio tomou conta de sua alma, penetrou profundamente em seu coração, como uma peste, um animal selvagem, uma doença dos tempos, algo que vem impregnando a sociedade envolvente e transformando as pessoas e as instituições. Tal como disse Victor Hugo uma vez: “a sociedade não pune apenas o crime. Ela fabrica identidades irreversíveis”.
O veredicto final veio através do Estado, ou seja da sociedade politicamente organizada, na palavra da Juíza designada. Para o Estado, a mãe de Henry, era uma homicida que fazia jus ao perdão judicial pelo crime efetivamente cometido, e a condenação deveria recair sobre todos nós, membros da sociedade onde o fato se deu.
A mãe, nascida mulher, foi vítima da sociedade misógina e patriarcal. Vítima de uma cultura amplamente difundida que cerceia o livre arbítrio das mulheres, cujos crimes por elas praticados, resultam da imersão nesses valores amplamente difundidos. Vai mais adiante, a inefável Juíza, para afirmar que a despeito das lutas para enfrentar o machismo, ele opera de forma sutil. Daí a dificuldade de elimina-lo pela via da conscientização. Nos dias de hoje, a misoginia declarada sufoca as mulheres e seus crimes devem ser perdoados em razão da inferioridade a que elas estão subordinadas.
Em outras palavras, quem matou o menino Henry foi a sociedade opressora das mulheres, a cultura woke de homens criminosos e mulheres perdoadas. As nossas lágrimas não serviram de nada!
Não é surpresa que as decisões judiciais no país dos canalhas sejam tomadas por juízos ideológicos e não por conhecimentos jurídicos. Hannah Arendt já nos advertia desta catástrofe da civilização quando assinalou que “a morte da empatia humana é um dos sinais mais precoces e mais reveladores de uma cultura a ponto de nos envolver na barbárie”.



