O LEITE DERRAMADO

Às

O LEITE DERRAMADO

Na linguagem coloquial e caseira, usamos a expressão que dá título a este comentário, quando queremos dizer que não há mais jeito a dar, que entornamos o leite no chão, o leite que deveria nos servir de alimento. É o que acontece quando o Estado esgota seu viés autoritário, nos cassa a liberdade de expressão, trancafia nas masmorras do regime os adversários políticos, subverte a ordem política e prática os crimes mais hediondos.

O leite derramado é o que escorre na alma do cidadão e que chamamos de totalitarismo. Não é mais a arma distópica do Estado, mas seu instrumento mais vigoroso: a transformação da língua.

A prisão arbitrária de inocentes retira direitos essenciais de centenas de cidadãos. É intolerável e repugnante. No Brasil de hoje, tais perversões não contentam os tiramos. O que se pretende é alterar o dicionário, conferir às palavras outros significados. Ao chamar censura de regulação da linguagem ou a mentira de uma narrativa, o objetivo é mudar e escravizar a mente humana.

Primeira altera-se o sentido das coisas. Depois cala-se o homem e obriga-o a pensar como todos os outros, igualmente na famosa peça teatral de Ionesco. “A deturpação da palavra é, portanto, o antídoto contra o pensamento”, adverte a magistral sentença de Dennys G. Xavier. Não é por outra razão, que o grande desafio do homem contemporâneo, aqui e alhures, é o de qualificar corretamente o significado das palavras.

Muitas vezes, levantamos nossas vozes para reclamar o direito de falar e assim nos defrontamos contra um dos pilares do Estado autocrático, porém como ressaltou George Orwell, a fim de se antepor à força devastadora do Totalitarismo, mais do que o sagrado direito à expressão, devemos lutar pela verdade contida nas palavras, seu real significado e não nas narrativas da novilíngua.

Se a liberdade de expressão está na raiz da vida democrática, tal como afirmaram os criadores da grande Democracia norte-americana, é também verdadeiro que a verdade consiste em restituir às palavras seu real significado: censura é censura, mentira é manipulação e assim toda vez que o juízo totalitário tentar corromper a liberdade humana.

Desse modo, fica claro que as ações autocráticas do Estado afetam as liberdades constitucionais dos cidadãos, igualmente o totalitarismo afeta profundamente a ética individual do homem, que se deixou enganar pela mentira institucionalizada e permitiu o reinado da mentira na esfera pública. Onde predomina a narrativa falsa e mentirosa a verdade está sacrificada e toda liberdade daí advinda não passa de uma ilusão perdulária.

A defesa da verdade está associada à responsabilidade ética do indivíduo, ainda mais porque é “o indivíduo a menor minoria na Terra”, nas sábias e definitivas palavras de Ayn Rand, levando em conta que outro fundamento do Estado Democrático de Direito são os direitos constitucionais de cada minoria.

Só há uma forma conhecida de vitória final do totalitarismo sobre uma nação que preza suas liberdades. É quando os cidadãos abandonam suas obrigações morais e seu patriotismo e permitem a reconfiguração do seu pensamento livre, que o transforma de soberano em súdito reconfigurado de sua própria individualidade.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie:redacao@fbcomunicacao.com.br
*Os comentários podem levar até 1 minutos para serem exibidos

Faça seu comentário