Em 2009, tomei contato com a pesquisa intervencionista quando assisti a um painel no European Accounting Association Annual Congress em Tampere, Finlândia, com os principais nomes da Contabilidade Gerencial: os professores Kari Lukka, Ken Merchant, Sven Modell, Robert Scapens e Teemu Malmi. Na época, estava começando minha carreira como pesquisador, pois havia terminado o doutorado em 2008 usando o método de pesquisa baseado em survey na linha teórica da Resource-Based View, hoje alçada à condição de teoria. Mesmo usando uma metodologia menos impactante, minha tese teve boa repercussão e foi uma das pioneiras nessa abordagem teórica que explica desempenho. O desempenho, de fato, sempre foi minha preocupação, talvez pelos anos de experiência prática, atuando em controladoria e em projetos de consultoria.
Inspirado por essas ideias dos Professores Malmi e Lukka escrevemos um artigo sobre o tema pesquisa intervencionista com os professores Paulino Silva, do ISCAP-Porto; Edson Riccio, um pioneiro na pesquisa-ação; e meu colega e amigo de debates intelectuais, Octávio Mendonça Neto, hoje a maior autoridade brasileira em pesquisa intervencionista na área de contabilidade gerencial. O artigo foi publicado no Congresso ANPCONT de Natal e, posteriormente, na revista da ANPCONT.

Hoje, 15 anos depois, fico feliz em ver que a ideia da pesquisa intervencionista se propagou, embora ainda não da forma esperada — o que é bem normal, tendo em vista a dificuldade de mudar o pensamento dominante na comunidade acadêmica brasileira — mas com bons frutos. Conseguimos, ainda, trazer um expoente da pesquisa intervencionista ao Brasil, o professor Petri Suomala, da Finlândia, berço da Interventionist Research (IVR). Com alegria, vemos nas próprias fichas de avaliação da Capes a expressão relato de intervenção, já aceitando o papel do pesquisador como agente de transformação, e não somente como espectador, analista ou observador de um fenômeno.
Alguns colegas até usam outros termos, mas “pesquisa intervencionista” se consagrou. Mais que isso, espero que ela ainda renda muitos frutos e possa ajudar a pesquisa brasileira a ser mais relevante para os interesses dos “práticos”. Quando for desenhar a sua pesquisa, recomendo que você, estudante de mestrado e doutorado, pense em utilizar a abordagem intervencionista para identificar e resolver um problema complexo e relevante, usando o método científico, contribuindo para a teoria e, principalmente, para a prática. Os benefícios são vários: certamente você entenderá um problema em profundidade, terá mais contato real com a realidade (algo bastante raro ultimamente no meio acadêmico), poderá contribuir no desenho e na implantação de uma solução e, quiçá, se tornará um expert reconhecido pelo mercado nesse tema, obtendo receita com esse conhecimento. Creio que somente com uma participação maior de pesquisas intervencionistas (evidentemente, coexistindo com outros métodos) é que poderemos, de fato, avançar no conhecimento produzido pela academia, tornando-o ainda mais útil para a sociedade, principalmente no campo da contabilidade gerencial.
Vemos vários ilustres colegas defendendo o estudo da prática, o que é muito bom. O grupo do qual eu faço parte tem defendido o estudo da prática pelos práticos que se envolvem em pesquisas acadêmicas, coproduzindo conhecimento útil para transformar a sociedade. Outras lentes são necessárias, com a liderança do Professor Octávio Mendonça e participação do Professor Ronaldo Dultra, avançamos em outro tema, que é o pragmatismo nas pesquisas em contabilidade gerencial, mas isso fica para outro artigo.
Referências
Oyadomari, J. C. T., Silva, P. L. da, Mendonça Neto, O. R. de, & Riccio, E. L. (2014). Pesquisa intervencionista: um ensaio sobre as oportunidades e riscos para pesquisa brasileira em contabilidade gerencial. Advances in Scientific and Applied Accounting, 7(2), 244–265. https://asaa.anpcont.org.br/asaa/article/view/134
Mendonça Neto, O. R. de, Oyadomari, J. C. T., & Lima, R. G. D. de. Pragmatismo: a conexão entre a teoria e a prática. Advances in Scientific and Applied Accounting. Recuperado de https://asaa.anpcont.org.br/index.php/asaa/article/view/880
José Carlos Oyadomari (PhD). Possui mais de 40 anos de experiência empresarial nas áreas de controladoria e contabilidade gerencial. Professor desde 1983, atualmente leciona no Insper e no Mackenzie. Sócio da True Port Advisors (M&A). Consultor, conselheiro de empresas e palestrante. Pesquisador focado em melhorar o Desempenho e a Governança das empresas. Coautor do livro Contabilidade Gerencial. Instagram: @prof.oyadomari. Site: https://oyadomari.pro.br.



