Turnover, Absenteísmo e Benefícios

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Turnover, Absenteísmo e Benefícios

A falta de mão de obra qualificada — e até mesmo não qualificada — é um problema relevante para as empresas brasileiras. Neste artigo, desenvolvo algumas reflexões a partir da minha prática empresarial e das observações que faço da realidade das empresas com as quais trabalho.

Além da dificuldade de atrair, existe a dificuldade de reter, gerando o fenômeno chamado turnover. O turnover voluntário ocorre quando o próprio colaborador decide se desligar da empresa.

Esse tipo certamente precisa ser considerado à parte. Por outro lado, uma boa quantidade dos desligamentos classificados como "involuntários" pode, na prática, ser provocada pelo próprio funcionário - quando ele cria motivos para ser demitido, como o absenteísmo (ausência ou afastamento não programado de um funcionário durante o expediente) recorrente ou o não cumprimento de tarefas. Em uma empresa, por exemplo, observou-se que o maior percentual de turnover estava concentrado na faixa salarial mais distante do teto do cargo. Nesse caso, a solução pareceu estar em já admitir os novos funcionários em faixas salariais mais próximas do topo.

Mas nem sempre a resposta está no salário — às vezes, está na concessão de benefícios ou incentivos.

Outro dia, o gerente de uma empresa me contou que os colaboradores da fábrica não aderiam ao plano de saúde por causa do desconto em folha. Isso levanta duas perguntas. Primeira: esses mesmos funcionários tinham alto índice de absenteísmo justificado por atestados médicos? Segunda: o que aconteceria se a empresa descontasse apenas um valor simbólico do plano? Faço essas perguntas porque, numa empresa do segmento de academias com a qual tive contato, o desconto do plano de saúde é menor quanto mais tempo a pessoa trabalha na empresa — um mecanismo pensado para estimular a permanência, diminuindo a possibilidade do profissional procurar emprego em academias concorrentes. Conversando com uma colaboradora que trabalha em uma empresa de vigilância, ela me disse que considerava uma gratificação mensal por assiduidade como parte da remuneração ao comparar com outra proposta salarial que havia recebido, por outro lado tinha cancelado o plano de saúde, por este ser muito limitado. Ou seja: bem desenhado, os benefícios e incentivos ajudam a reduzir tanto o absenteísmo quanto o turnover.

Benefícios: o que pode mudar o jogo

As pessoas fazem contas. A questão da saúde física e mental importa hoje, principalmente, para os profissionais mais jovens — público em que o turnover se concentra e que as empresas têm mais dificuldade de atrair para o primeiro emprego. Embora não existam estudos que comprovem essa relação causal de forma robusta, entendo que, na prática, esse benefício já faz diferença relevante na composição do pacote de remuneração. O mesmo raciocínio vale para a existência de uma academia no condomínio: o morador calcula quanto isso representa de economia, além do ganho em comodidade.

Por isso, mesmo que sua empresa seja pequena, faz sentido olhar para os benefícios concedidos aos funcionários — plano de saúde, seguro de vida, vale-refeição, vale-alimentação, academia, auxílio-escola — não mais como custo, mas como driver de resultado. As melhores empresas conseguem oferecer aos funcionários, em escala, coisas que seriam caras para estes comprarem  individualmente: um bom plano de saúde, acesso à academia e um seguro de vida saem muito mais caros quando contratados fora de um grupo. Por isso, vale pensar nessa estratégia mesmo em um negócio pequeno. No final das contas, a falta de profissionais, o alto turnover e o absenteísmo tendem a sair mais caro para a empresa do que o investimento nesses benefícios, tanto no curto quanto no médio prazo. 

José Carlos Oyadomari (PhD.).  Consultor e conselheiro de empresas. Professor desde 1983, atualmente leciona no Insper e no Mackenzie. Possui mais de 40 anos de experiência empresarial nas áreas de controladoria e contabilidade gerencial. Atua sempre com foco em melhorar a Rentabilidade e a Governança das empresas. Coautor do livro Contabilidade Gerencial (Gen Atlas). Instagram: @prof.oyadomari. Site: https://oyadomari.pro.br.
 

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