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O Acordo Mercosul-União Europeia e a nova fase do Brasil no mercado internacional

Por Da Redação
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O Acordo Mercosul-União Europeia e a nova fase do Brasil no mercado internacional

Foto: Reprodução/Assessoria

Por Ronaldo Vieira¹ e Baiena Souto²

O Acordo Mercosul-União Europeia é amplamente reconhecido como um tratado comercial que conecta o vasto mercado consumidor europeu às economias do bloco sul-americano. Após quase duas décadas de negociação, o acordo entra em vigor de forma provisória e gradual em 2026, assim que forem concluídas as etapas de ratificação previstas pelos dois blocos. A partir desse momento, tarifas começam a ser reduzidas e novas regras regulatórias passam a valer. O objetivo central é ampliar o comércio, facilitar investimentos, harmonizar padrões técnicos e fortalecer cadeias produtivas, criando um ambiente mais previsível e competitivo para empresas de ambos os lados.

O tratado representa um marco histórico capaz de reconfigurar as relações entre economias emergentes e potências industriais. Mas ele chega em um cenário internacional muito distinto daquele em que foi concebido. Nesse novo contexto, recoloca o Mercosul no centro do debate sobre a necessidade de revitalizar o multilateralismo e destaca o Sul Global como ator estratégico em meio à crescente competição geopolítica, em que a instabilidade passa a integrar o próprio jogo comercial. Países do Sul Global buscam ampliar seu poder de ação, e a China ocupa posição central nesse rearranjo.

Ainda que o conteúdo do acordo ganhe apelo especial neste momento, é legítimo questionar se ele representa uma solução para todos os desafios enfrentados pelo Mercosul ou se seus benefícios serão distribuídos de forma desigual. A dúvida é inevitável: o acordo conseguirá favorecer o lado tradicionalmente mais frágil da relação ou corre o risco de aprofundar assimetrias já existentes?

Responder a essas questões é fundamental para compreender o papel estratégico do Brasil no comércio mundial e orientar políticas que garantam que o acordo funcione como vetor de desenvolvimento sustentável, e não como mais um capítulo de desequilíbrios históricos no comércio internacional.

Embora o Acordo Mercosul-União Europeia represente uma oportunidade histórica de integração econômica, tecnológica e regulatória, sua capacidade de reposicionar estrategicamente os países do Mercosul e impulsionar o Sul Global depende menos do texto do tratado e mais das estratégias adotadas pelos próprios países em desenvolvimento. O alerta é claro: o acordo, por si só, não garante a redução de assimetrias. Ele pode inclusive ampliá-las caso o Sul Global não se organize para aproveitar plenamente vantagens como acesso preferencial ao mercado europeu, modernização produtiva e atração de investimentos.

A articulação com políticas industriais, a integração regional, o fortalecimento de cadeias de valor e a harmonização regulatória podem transformar o acordo em instrumento de desenvolvimento sustentável. Esses elementos permitem que países historicamente marginalizados ascendam a posições mais vantajosas no comércio internacional. Em outras palavras, o acordo não é automaticamente benéfico para o lado mais fraco, mas pode tornar-se uma alavanca poderosa desde que o Sul Global atue de forma coordenada, estratégica e orientada à criação de valor agregado.

Inicialmente, é até compreensível que muitas empresas brasileiras tendam a enxergar o acordo apenas como uma oportunidade de negócios diretos com a Europa, focando na abertura de mercados, na redução tarifária e na ampliação das exportações. Embora correta, essa visão é limitada e representa apenas parte do potencial transformador do tratado. O Brasil ocupa posição singular para atuar como ponte entre o Sul Global e o mercado europeu no contexto do acordo.

Além disso, o país tende a atrair investimentos europeus em infraestrutura, inovação e transição energética, elementos que podem modernizar a indústria e gerar valor agregado. O acordo ganha relevância ao promover o comércio de tecnologias renováveis e destravar investimentos em minerais críticos. Com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e vastas reservas de minerais estratégicos e terras raras, o país encontra uma oportunidade única de conectar o Mercosul à agenda global de descarbonização.

A previsibilidade regulatória e a possibilidade de participar de licitações públicas europeias criam um ambiente favorável para que empresas brasileiras ampliem sua presença internacional de forma sustentável e competitiva. O mesmo vale para empresas europeias em licitações brasileiras, em condições equivalentes. Para mitigar desigualdades históricas, prevê-se equilíbrio na abertura de mercado e preservação da soberania tecnológica, incluindo cláusulas de offset que exigem transferência de tecnologia ou produção local.

Ao assumir esse papel de ponte, o Brasil pode irradiar benefícios para outros países do Sul Global, ampliando o alcance do acordo. A integração produtiva regional permite que insumos, componentes e serviços de países africanos e latino-americanos sejam incorporados às cadeias industriais brasileiras destinadas ao mercado europeu. A atração de investimentos europeus pode gerar projetos trilaterais em áreas como energia renovável, logística, agricultura sustentável e digitalização. A harmonização regulatória liderada pelo Brasil pode facilitar o acesso de terceiros países aos padrões exigidos pela União Europeia, reduzindo barreiras técnicas e ampliando a competitividade regional.

É importante compreender, também, que o Acordo Mercosul–União Europeia é apenas um entre vários instrumentos que estruturam as relações entre a Europa e o Sul Global. Nesse cenário complexo, o Sul Global não pode atuar de forma fragmentada. Precisa organizar-se estrategicamente para operar nesse ecossistema de acordos, harmonizar padrões regulatórios, fortalecer cadeias produtivas regionais e ampliar sua capacidade de negociação.

A participação coordenada do Sul Global é essencial para que esses instrumentos, dos quais o acordo Mercosul–UE é o mais recente, deixem de ser oportunidades formais e se tornem ferramentas reais de desenvolvimento sustentável, capazes de gerar valor agregado, inovação tecnológica, inclusão produtiva e maior presença internacional para países em desenvolvimento.

Ao articular essas dimensões, o Brasil contribui para que o Sul Global participe de forma mais integrada e qualificada do comércio internacional. Nesse movimento, o acordo deixa de ser apenas um instrumento comercial e se converte em uma ferramenta de transformação regional. O Brasil emerge como articulador central entre Europa, América Latina e África, reposicionando o Sul Global no tabuleiro internacional com mais força, mais voz e mais ambição.

¹ Diplomata de carreira, especialista em Relações Internacionais. Atualmente pesquisando o Brasil no Sul-Global.
² Consultora. Mestre pelo IBGE e graduada em Ciências Sociais pela UFBA. Experiente em indicadores sociais, pesquisas socioeconômicas e análise de dados. Atua com consultoria e trade, coordenando projetos nos setores público e privado, especialmente em políticas públicas, planejamento estratégico e desenvolvimento de comércio.

 

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