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Vídeo: Salvador enfrenta desafios para manter bares e restaurantes abertos durante a madrugada

Principais causas apontadas por proprietários de estabelecimentos são segurança pública e falta de acesso ao transporte público

Por Paulo Neto
Às

Atualizado
Vídeo: Salvador enfrenta desafios para manter bares e restaurantes abertos durante a madrugada

Foto: Gláucia Campos/Samara Figueiredo/ Farol da Bahia | Agência Brasil

Salvador, primeira capital do Brasil, é conhecida pela diversidade gastronômica construída a partir de diferentes influências culturais e históricas. Espalhados por diversos bairros, bares e restaurantes atendem moradores e turistas com uma ampla variedade de pratos e bebidas. Apesar da oferta, a cidade ainda enfrenta dificuldades para manter estabelecimentos funcionando durante a madrugada.

“Em Salvador, começa muito tarde e fecha muito cedo. Tem muitas opções, mas o horário é bem apertado, principalmente para quem gosta de sair à noite”, afirmou Larissa Lima.

Segundo Carlos Cerqueira, o maior movimento nos estabelecimentos ocorre entre o fim da manhã e o final da tarde. “O maior movimento começa a partir das 11h30 até às 17h”, disse.

Ângelo também avalia que Salvador possui opções gastronômicas, mas enfrenta limitações no período noturno. “Acho que tem muitas opções legais, mas a cidade dorme cedo”, afirmou.

Durante o dia, a oferta de serviços de alimentação é ampla. Nas primeiras e últimas horas do dia, no entanto, o cenário muda. Na madrugada, quando o movimento nas ruas diminui, grande parte dos bares, restaurantes, quiosques e barracas permanece fechada.

Para Maria José, a violência também influencia a decisão de sair e permanecer na rua durante a noite. “Faltam bares e restaurantes, pois acho que tem poucas opções, principalmente pela violência em que vivemos, que nos obriga a sair de casa cedo e voltar cedo”, disse.

Paula Góes atribui parte das mudanças no setor aos efeitos da pandemia de Covid-19. “Após a pandemia do Covid-19, muita coisa mudou e muitos empresários fecharam, pois não tiveram condições de manter os funcionários”, opinou.

Enquanto Salvador mantém a fama de cidade que não dorme durante festas populares e grandes eventos, trabalhadores noturnos, turistas e moradores relatam dificuldades para encontrar estabelecimentos abertos durante a madrugada.

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) na Bahia, Júlio Calado, aponta dois fatores que dificultam a expansão da atividade noturna: segurança pública e transporte.

“Há dois problemas que fortemente atrapalham o funcionamento dos bares e restaurantes à noite. Uma delas é a segurança pública, pois atualmente há muita sensação de insegurança, o que causa maiores problemas. O segundo problema é o transporte público à noite, que é inexistente em Salvador, devido à baixa demanda”, afirmou.


Pandemia e fechamento de estabelecimentos

A dificuldade de encontrar estabelecimentos abertos durante a madrugada ocorre em um cenário de transformações no setor de alimentação. Segundo dados divulgados pela Secretaria da Fazenda de Salvador, em 2019, 781 restaurantes foram fechados na capital baiana. No mesmo ano, foram 443 bares descontinuados.

Os números mais recentes mostram que o movimento de fechamento continuou. Em 2025, foram fechados 1.304 bares e 739 restaurantes, segundo os dados apresentados pela pasta.

Apesar dos fechamentos, a Secretaria da Fazenda destaca que o saldo de bares e restaurantes na capital baiana foi positivo em todos os anos entre 2019 e 2025, com exceção de 2022.

De acordo com a Secretaria, a menor disponibilidade de estabelecimentos durante a madrugada, mesmo diante do saldo positivo no setor, pode ser explicada, entre outros fatores, pela maior atuação dos serviços de delivery.

Entre os estabelecimentos que encerraram as atividades recentemente estão o Meat Salvador Steak House, que funcionava até as 23h; o Oxe Drinks, que atendia no fim da tarde; e o Bombar, que mantinha funcionamento até as 3h30.

Paula Góes também lembra do Bar Sem Nome, que funcionava na Rua Carlos Gomes e era frequentado pelo público LGBTQIA+.

“O Bar Sem Nome, que ficava localizado na Carlos Gomes, era um atrativo para pessoas da comunidade LGBTQIA+, onde era um local que nos possibilitava conhecer pessoas novas e com o interesse em manter um diálogo”, relatou.


Segurança e transporte dificultam funcionamento noturno

Para alguns empresários, a demanda existe, mas os custos e as dificuldades de operação durante a madrugada tornam o horário pouco atrativo.

É o caso do Madiba, restaurante localizado na região de Pituaçu e conhecido por preservar referências da culinária afrodiaspórica. O estabelecimento, no entanto, encerra o atendimento antes da madrugada.

“O mercado noturno é um mercado que tem um potencial incrível, seria bastante interessante, pois é fora do fluxo, em relação ao trânsito e à modalidade urbana. Apesar disso, é muito difícil operar nesse horário devido à mobilidade urbana, diante da dificuldade que nossos colaboradores encontram para voltar para casa, além da segurança, diante da falta de policiamento adequado”, afirmou o proprietário do estabelecimento, Anderson Lima.

Há, entretanto, empreendimentos que apostam no funcionamento durante a madrugada.

No Rio Vermelho, o Point do Japa funciona exclusivamente durante a noite e a madrugada entre sexta-feira e domingo. O proprietário, Seiji Kiwa, afirma que a baixa oferta de opções acaba concentrando o público nos poucos estabelecimentos que permanecem abertos.

“Em Salvador inteira são poucos os bares que funcionam neste horário. O pessoal não tem aonde ir, aí vem para cá, pois sabe que o Point do Japa vai sempre estar aberto na sexta, sábado e domingo”, disse.


Problema também afeta outras capitais

A redução da oferta de estabelecimentos durante a madrugada não é uma característica exclusiva de Salvador. Em outras capitais nordestinas, o setor também enfrenta dificuldades para manter uma vida noturna mais ampla.

Em Natal, no Rio Grande do Norte, o morador Gustavo Guedes afirma que as opções estão concentradas em bairros específicos, como Cidade da Esperança e Vila de Ponta Negra.

“Algumas poucas casas de show resistiram no centro da cidade em se manter abertas durante a noite, mas fecham no início da madrugada. Essa demanda de funcionamento na madrugada existe nos bairros, onde alguns possuem um fluxo interno com demandas culturais, como Cidade da Esperança e Vila da Ponta Negra, que possuem uma vida noturna mais agitada. Mas, infelizmente, após a pandemia, perdemos muitas casas de show e locais onde as pessoas se encontravam”, explicou.

Para Júlio Calado, a ampliação da atividade noturna poderia gerar empregos, movimentar a economia e aumentar a arrecadação.

“Em termos de empregabilidade, são milhares de empregos que são perdidos à noite. Imagine a quantidade de empregos que poderíamos gerar, como renda familiar e renda para as pessoas, inclusive impostos que poderiam ser gerados com os restaurantes abertos à noite”, afirmou.

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