O texto completo de Poeminho do Contra, do poeta gaúcho Mário Quintana, que trago à tona neste modesto artigo, diz assim: “todos esses que aí estão/atravancando meu caminho/eles passarão, eu passarinho!”. Afora a simplicidade eloquente da poesia, ela encerra a convicção de um homem inspirado no futuro, na História.
É como me sinto, quando vejo o que me parecia inaudito se põe perante meu olhos incrédulos. Abordo o jantar entre os três chefes dos poderes republicanos, num convescote secreto em casa do então presidente do poder judiciário, Alexandre de Moraes, do presidente do Congresso Nacional, David Alcolumbre, e do Presidente da República, Lula da Silva.
A ninguém foi dado conhecer o teor do diálogo entre as três autoridades, ainda mais, segundo confirmou o representante do Legislativo, o caráter sigiloso das conversações eram entre tapas e beijos. Somente os “passarinhos” delas tomou conhecimento.
Queria eu, como cidadão desse inverossímil país, ter pleno conhecimento do que falaram, considerando que tal conversa só poderia reuni-los para tratar de assuntos do Estado, assuntos pertinentes a todos os cidadãos, principalmente pela gravidade de que se revestiam, já que autoridades deste alta escalão só se reúnem em emergências nacionais e em instalações do próprio Estado.
Não é crível que teriam se reunido para celebrar a paz entre o Executivo e o Legislativo para o bem de todos e a felicidade geral da nação. Afinal, tal mister não é função de um juiz da suprema corte, sobretudo quando os três estão enrolados em problemas da mais alta gravidade.
O período eleitoral, deflagrado com a realização das convenções partidárias e o contencioso dos problemas nacionais, também não é recomendado para que reuniões como estas se realizem, sem que sejam plenamente do amplo conhecimento de todos os brasileiros, em seus mínimos detalhes, permitindo, desse modo, que qualquer um possa levantar dúvidas e suspeitas sobre o processo eleitoral, tão carregado de desconfianças, conhecidas da opinião pública nacional e internacional.
A ninguém é dado desconhecer o ambiente carregado de suspeitas e investigações, levadas a cabo pelo Policia Federal, e que envolvem auxiliares diretos do presidente da República e seus familiares, as ligações comprovadas entre os crimes praticados pelo Banco Master e o envolvimento de integrantes da suprema corte e as denúncias sob investigação relacionadas às ligações do presidente do Senado com o próprio Banco Master e outros escândalos em voga!
Para quem preza os valores da Democracia, sabe que uma reunião dessa magnitude, reunindo os chefes dos poderes constitucionais da República, não trata apenas de palavras vazias ou de um encontro entre amigos, a não ser que os integrantes destas altas configurações do regime não tenham nenhum senso do que realmente estão investidos e podem romper impunemente com os ritos e exigências de suas funções.
Só me resta conceber, em face de tamanha desonra dos costumes, que tal procedimento deriva da convicção de que somos, infelizmente, um povo que percebeu, em razão do grau de proficiência, medido pelo Indicador de Analfabetismo Funcional-INAF, que apenas 8% dos brasileiros, entre 15 e 69 anos são considerados proficientes e que são incapazes de decodificar letras, realizar inferências e tolerar absurdos desta natureza.
É por isso que os aventureiros do populismo demagógico afrontam o povo e confiam na precariedade da educação do nosso povo, corroborando a lúcida afirmação de Darcy Ribeiro, segundo a qual “a crise da educação no Brasil não é uma crise: é um projeto.”
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